Violência

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Parece ser inoportuno falar da Campanha da Fraternidade/2018 quando já passamos da metade da Quaresma. Aliás, o BIO de fevereiro já trouxe uma matéria, em página dupla sobre o tema da superação da violência, e as comunidades já devem estar se confrontando com este tema, diante da realidade dura da vida quotidiana, em que devemos, nesta Quaresma, em sinal de conversão, introduzir o remédio da Fraternidade.

É importante, no entanto, voltar ao assunto e reforçar: a Quaresma é, sim, um tempo oportuno para nos questionarmos e buscarmos atitudes concretas de conversão. E a Campanha da Fraternidade, que acontece a cada ano, há mais de cinco décadas, é um instrumento valioso para isso. Podemos questionar: os temas passam, e os problemas continuam, pois sim? De fato. Mas ficam sementes preciosas que se desenvolvem através de ações permanentes. Ficam na lembrança da gente os temas que passaram: quem não se lembra de lemas como a Ecologia “Eu quero o verde entoando salmos mil à vida…” ou “vida, sim, drogas não!” Ou sobre o negro: “Eu ouvi o clamor deste povo”. Alguns temas se repetem: ano que vem celebraremos 25 anos da CF sobre a família. Vamos relembrar o canto que ficou na memória de quem lá viveu: “E a família como vai? Meu irmão, venha e responda….” O tema do ano que vem será sobre as políticas públicas, muito próximo, portanto, da família. No conjunto desses anos, que grande benefício tem feito a Campanha da Fraternidade, em todo o país!

A Coleta da Campanha, para onde vai? – Importante também é o chamado “gesto concreto” da Campanha, que é feito no Domingo de Ramos. As coletas deste domingo são destinadas integralmente à ajuda aos necessitados. Quem faz essa destinação é a Cáritas Nacional e as Cáritas diocesanas. Tudo é feito com muita seriedade e nunca houve nem haverá outra finalidade senão a solidariedade para com os pobres. Isso é levado muito a sério. Por isso peço a todos que sejam generosos para com a Coleta da Campanha, que neste ano será dia 25 de março, em todas as paróquias. Peço aos padres que motivem, e aos fiéis que participem desse gesto, confiantes de que, assim como aconteceu sempre, a finalidade solidária desses recursos será integralmente respeitada. Isso nos garante a CNBB.

Por falar na CNBB, o que é e o que faz?  A CNBB é a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Ela é formada pelos trezentos Bispos das dioceses brasileiras. Em todos os países, as Conferências Episcopais fazem a ligação entre as dioceses e o Santo Padre, o Papa, garantindo a unidade da Igreja no mundo inteiro. Eu participo da CNBB faz 10 anos, agora nos últimos três anos participo do Conselho de Pastoral da CNBB, e posso garantir que a CNBB é a voz da Igreja e seu único compromisso é com o Evangelho, com Jesus Cristo e com a ética, tão necessária para a vida humana. A CNBB não estabelece normas para as dioceses, porém, quando os trezentos Bispos se pronunciam em documentos e propostas de evangelização, sua palavra deve ser acolhida, sim, como voz oficial da Igreja. E a Campanha da Fraternidade, bem como as Diretrizes da Evangelização e toda a ação evangelizadora devem animar as comunidades e todos os cristãos do Brasil.

A CNBB é formada pelos 300 bispos que fazem a ligação das dioceses com o Papa, e desempenha o papel de garantir a unidade da Igreja no mundo inteiro. Arquivo CNBB

Estamos vivendo um tempo muito conturbado, seja no meio de tanta pluralidade religiosa, seja no mundo das ideias e partidos políticos, seja diante de uma realidade social em que sofrem muitos irmãos. Em ambiente assim, o embate de ideias, e até confrontos e acusações se ouvem de todo lado. A CNBB, por suas posições sempre em favor da ética e em defesa dos mais frágeis, também sofre por isso, e nem o Santo Padre escapa. É importante que nos mantenhamos unidos, com a Igreja, nossa mãe. Essas situações passam, o Evangelho continua o mesmo, a fraternidade deve ser abraçada com vigor.

Dom João Bosco, ofm
Bispo Diocesano de Osasco
Instagram @d.freibosco

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O tempo da Quaresma tem início com o dia das Cinzas, e a cor roxa vem nos convidar a uma retomada dos melhores caminhos, uma renovação da vida pessoal e comunitária, um mergulho nas raízes de nossa vida cristã. Passados os festejos natalinos, o recesso habitual das escolas, da catequese, e de descanso para muitos, é hora de voltar nossa atenção para a vida que se abre à nossa frente, sempre com novidades: é ano eleitoral, ano de copa do mundo, coisas que fazem esquecer os apertos econômicos, o desemprego, os altos custos, as crises de sempre que apertam os cintos e restringem a vida da grande maioria para poucas alegrias. Para nós cristãos, o tempo da Quaresma é precioso: nos remete ao essencial da nossa vida. E nossa vida é Jesus Cristo, sua Palavra, sua proposta de vida, a sua vida compartilhada com os irmãos e irmãs no quotidiano do amor Familiar, na comunidade, num mundo feito de irmãos.

Mundo de irmãos? Mas aqui termina o sonho e começa a realidade bruta que experimentamos: que mundo de irmãos é esse que temos? Ao olharmos a vida que desenhamos há pouco vemos que a fraternidade, o mundo justo, a convivência sadia entre as pessoas, o respeito e o cuidado pelos mais frágeis ainda está para ser construído. Temos essa esperança de um mundo melhor porque foi essa a razão da vinda de Cristo, do seu sofrimento e da sua ressurreição. Então a Quaresma bem vivida se torna um caminho de fraternidade, a melhor maneira de prepararmos a Páscoa, morreremos com Cristo para ressuscitar com ele.

Na Quaresma deste ano a Campanha da Fraternidade vem, com o seu enredo, desfilando em nossas ruas, invadindo nossas casas, vem tirando a nossa paz. Superação da Violência, é o tema que refletiremos e vem apresentado nas páginas centrais da edição de fevereiro do BIO (Boletim Informativo de Osasco). Impossível fechar os olhos, trancar a casa, subir o vidro do carro. Não adianta tapar os ouvidos, fingir de cegos, chamar a polícia, a tv cospe violência em duas de cada três notícias. Quem sabe encontremos refúgio na religião. Clamando a Deus, cantando aleluias, portando amuletos, dizendo esconjuros, será que nos protegemos assim da violência?

Mas a questão principal não é fugir da violência, mas superá-la. A religião é, sim, um caminho, mas não uma rota de fuga. Mãos na Bíblia, vamos encontrar a violência desde a primeira página, o primeiro registro de um homicídio. Encontramos lá a violência da escravidão, a perseguição dos profetas, a traição, o interesse, as histórias de martírio e de covardia. Mas a maior de todas as histórias de violência, a maior lição de superação da violência, nos dá Jesus Cristo na Cruz. “Pai, perdoai-lhes, eles não sabem o que fazem”. De fato, a humanidade não sabe o que fazer. Dá vontade de dizer que não existem caminhos duradouros para uma cultura da paz.

Mas o caminho existe, e já foi inaugurado por Cristo com sua vida de amor, com sua paixão e ressurreição. Há esperança. Talvez os frutos não sejam imediatos, mas importa começar. Testemunhar diante da sociedade, onde o ódio e a rapina fazem tantas vítimas e, por vezes hostiliza a própria igreja testemunhar a fraternidade. É esse o convite. Talvez encontremos a violência entranhada dentro de casa, mas a família ainda é o melhor antídoto para a violência. Vamos então ao encontro das famílias, vamos montar um “hospital de campanha” como sempre afirmou o Papa Francisco, ele que tem sido vitima de violência dos próprios irmãos de fé. Vamos organizar em nossas comunidades e realizar com esforço e esperança um grande programa de conscientização e mobilização pela cultura da paz.

Uma rica experiência quaresmal e uma Feliz Páscoa a todos!

Dom João Bosco, ofm – Bispo Diocesano de Osasco

 

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