Papa Francisco

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O Papa Francisco recebeu os alunos do Colégio Pio Brasileiro na manhã de sábado, 20, onde está Pe. Cássio, presbítero da Diocese de Osasco. Todos ficaram emocionados e agradecidos pela boa acolhida do Santo Padre.

Confira o discurso do papa:

“Queridos irmãos e irmãs,

Recebo-lhes hoje, por ocasião dos trezentos anos do achado da veneranda Imagem de Nossa Senhora Aparecida. Agradeço o Cardeal Sérgio da Rocha, Presidente da CNBB, pelas palavras amáveis que me dirigiu, em nome de toda a Comunidade presbiteral do Pontifício Colégio Pio Brasileiro, juntamente com as religiosas e funcionários que colaboram para fazer dessa casa “um pedacinho do Brasil em Roma”.

Como é importante sentir-se num ambiente acolhedor, quando estamos longe e com saudades da nossa terra, e tomados pela nostalgia, pelas saudades! Isso ajuda a superar as dificuldades para adaptar-se a uma realidade onde a atividade pastoral não é mais o centro do dia-a-dia. Vocês já não são mais párocos ou vigários, mas padres estudantes. E, essa nova condição pode trazer o perigo de gerar um desiquilíbrio entre os quatro pilares que sustentam a vida de um presbítero: a dimensão espiritual, a dimensão acadêmica, a dimensão humana e a dimensão pastoral.

Evidentemente, neste período concreto da vida de vocês, a dimensão acadêmica vem acentuada. Contudo, isso não pode significar um descuido das outras dimensões. É preciso cuidar da vida espiritual: a Missa diária, a oração quotidiana, a lectio divina, a oração pessoal com o Senhor, a recitação do terço. Também a dimensão pastoral deve ser cuidada: na medida do possível, é saudável e recomendável desenvolver algum tipo de atividade apostólica. E, pensando na dimensão humana, é preciso, acima de tudo, evitar que, diante de um certo vazio ligado à solidão, por não ter mais a consolação do povo de Deus, como quando estavam nas suas dioceses, acabe-se perdendo a perspectiva eclesial e missionária dos estudos.

Isso abre a porta para algumas “doenças” que podem afetar o padre estudante, como por exemplo o “academicismo” e a tentação de fazer dos estudos um mero meio de engrandecimento pessoal. Em ambos os casos acaba-se por sufocar a fé que temos a missão de guardar, como pedia São Paulo à Timóteo: «Guarda o depósito que te foi confiado. Evita as conversas frívolas de coisas vãs e as contradições da falsa ciência. Alguns por segui-las, se transviaram da fé» (1Tm 6, 20-21). Por favor, não se esqueçam que antes de serem mestres e doutores, vocês são e devem permanecer padres, pastores do povo de Deus!

Mas como é possível então manter o equilíbrio entre esses quatro pilares fundamentais da vida sacerdotal? Eu diria que o remédio mais eficaz contra esse perigo é a fraternidade sacerdotal. Isto não estava escrito, mas me veio de dizer agora (ndr – o Santo Padre improvisa), porque Paulo (na passagem recém citada) falou das fofocas: o que mais destrói a fraternidade sacerdotal são as fofocas. O mexerico é um “ato terrorista”, porque tu, com a fofoca colocas uma bomba, destrói o outro e vai embora tranquilo” Por isto, é necessário custodiar a fraternidade sacerdotal. Por favor, nada de fofocas. Seria bonito colocar um aviso na entrada: “Nada de fofocas”. Aqui (no Palácio Apostólico), tem a imagem de Nossa Senhora do Silêncio, no elevador do andar térreo; Nossa Senhora que diz “Nada de fofocas!”. Esta é a mensagem para a Cúria. Vocês podem fazer algo do gênero para vocês. (risos).

Na verdade, a nova Ratio Fundamentalis para a formação sacerdotal, ao tratar do tema da formação permanente, afirma que «primeiro âmbito em que se desenvolve a formação permanente é a fraternidade presbiteral» (n. 82). Essa é, portanto, como que o eixo da formação permanente. Isso se fundamenta no fato de que, pela Ordenação sacerdotal, participamos do único sacerdócio de Cristo e formamos uma verdadeira família. A graça do sacramento assume e eleva as nossas relações humanas, psicológicas e afetivas e «se revela e concretiza nas mais variadas formas de ajuda recíproca, não só espirituais mas também materiais» (João Paulo II, Pastores dabo vobis, 74).

Na prática, isso significa saber que o primeiro objeto da nossa caridade pastoral deve ser o nosso irmão no sacerdócio – é o primeiro próximo que temos -: «carregai – nos exorta o Apóstolo – os fardos, uns dos outros; assim cumprireis a Lei de Cristo» (Gal 6,2). Rezar juntos, compartilhar as alegrias e desafios da vida acadêmica, fazer festa, tomar uma cachacinha… (risos). Tudo isto está bem, está bem. Ajudar àqueles que sofrem mais com as saudades. Sair juntos para passear. Viver como família, como irmãos, sem deixar ninguém de lado, sobretudo aqueles que passam por alguma crise ou, quem sabe, têm comportamentos repreensíveis, pois «a fraternidade presbiteral não exclui ninguém» (Pastores dabo vobis, 74).

Queridos sacerdotes, o povo de Deus gosta e precisa de ver que seus padres se amam e vivem como irmãos, ainda mais pensando no Brasil e nos desafios tanto de âmbito religioso como no social que lhes esperam ao retorno. De fato, neste momento difícil da sua história, em que tantas pessoas parecem ter perdido a esperança num futuro melhor diante dos enormes problemas sociais e da escandalosa corrupção, o Brasil precisa que os seus padres sejam um sinal de esperança. Os brasileiros precisam ver um clero unido, fraterno e solidário, em que os padres enfrentam juntos os obstáculos, sem deixar-se levar pela tentação do protagonismo ou do carreirismo. Estejam atentos a isto. Tenho a certeza de que o Brasil vai superar a sua crise, e confio que vocês serão protagonistas desta superação.

Para isso, contem sempre com uma ajuda particular: a ajuda da Nossa Mãe do Céu, a quem vocês brasileiros chamam de Nossa Senhora Aparecida. Vem a minha mente as palavras daquele canto com o qual vocês a saúdam: «Virgem santa, Virgem bela; Mãe amável, mãe querida; Amparai-nos, socorrei-nos; Ó Senhora Aparecida». Que essas palavras se confirmem na vida de cada um de vocês. Possa a Virgem Maria, amparando e socorrendo, ajudá-los a viver a fraternidade presbiteral, fazendo com que o período de estudos em Roma tenha muitos frutos, para além do título acadêmico.

Que Ela, Rainha do Colégio Pio Brasileiro, ajude a fazer desta comunidade uma escola de fraternidade, transformando cada um de vocês em um fermento de unidade para as suas Dioceses, pois a “diocesanidade” do sacerdote secular se alimenta diretamente da experiência da fraternidade entre os presbíteros. E, para confirmar esses votos, concedo de coração à direção, alunos, religiosas e aos funcionários, a todos, juntamente com suas famílias, a Bênção Apostólica, pedindo também que, por favor, não deixem de rezar por mim. Obrigado.

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Papa-Laudato-Si
Foto: News.va Español

 

Laudato Si’

Que diferença faz uma Carta Encíclica entre tantos outros textos, estudos e publicações sobre um assunto tão discutido como é o tema da Ecologia. Faz muita diferença, com certeza. E na pressa da primeira leitura, eu posso citar três razões: A primeira por ser uma Encíclica, depois por ser do Papa Francisco, e a terceira por invocar a força e atualidade que tem São Francisco de Assis, o patrono da Ecologia. Explico:

Uma Encíclica é a palavra mais autorizada e mais solene do magistério do Papa. Não é uma Exortação Apostólica nem um “Motu Proprio” ou um discurso de ocasião. É um pronunciamento oficial, esperado por todo o mundo. Olhando para as grandes encíclicas do passado, vemos que elas não têm apenas uma repercussão imediata, mas vão produzindo frutos no longo prazo, à medida que vão se clareando os fundamentos sobre os quais está construída. Nesta Encíclica, o papa faz questão de dizer, ele não fala apenas ao mundo católico, ou aos homens de boa vontade, como fez João XXIII mas, explicitamente, se dirige a todas as pessoas do mundo. A oportunidade não poderia ser melhor: há uma série de eventos programados em nível de governantes, ainda este ano. É notório que esses encontros de cúpula, até aqui, quase sempre esbarram em interesses econômicos e vetos dos poderosos, que inviabilizam as soluções apresentadas. O Papa quer falar aos ouvidos dessa gente: não há solução técnica, nem motivação científica que resolva o problema, se não passar pela questão da justiça para com os mais pobres. Para Francisco, o problema do clima e do meio ambiente tem a mesma origem do problema da miséria e da pobreza: ambos têm que ser resolvidos em conjunto, com coragem e responsabilidade perante as próximas gerações.

A segunda razão, que gera muita esperança, diz respeito à pessoa do Papa Francisco. Seu carisma, palavras e gestos proféticos, seu espírito aberto e inclusivo, abre o coração mais endurecido. Não há liderança, no mundo hoje, capaz de falar a todas as classes sociais, a todas as etnias, a todas as tradições religiosas e convocar a todos os seres humanos, a não ser o Papa Francisco. Seu estilo simples e direto não é incomum nos documentos da Igreja. Francisco é quase coloquial. Pode ser bem compreendido pela gente mais simples, porém surpreende também os letrados. Com o tema da ecologia, ele entra em outros campos, fala da pobreza, da moradia, dos transportes, da educação, do lixo e da corrupção,e vai da fé até a política e economia, mostrando que tudo se relaciona com tudo. Assinada pelo Papa Francisco, a Carta Encíclica Laudato Si’, de fato, surpreende a todos.

Por último, quero lembrar a referencia a São Francisco de Assis, que está no título, no nome do autor e na alma desta Encíclica. É um texto absolutamente franciscano. Lembra a “Carta aos Fiéis” em que o Santo de Assis se dirige “a todos os que moram no mundo universo”: o imenso desejo de São Francisco de chegar ao coração de todos, para que olhassem e reverenciassem o Criador, está presente no coração do Papa. E, com toda a certeza, mesmo utilizando os argumentos mais laicos, Francisco leva a todos a contemplar o mundo não com os olhos frios da ciência, nem com os olhos ávidos do lucro, mas com o coração de irmãos. Maravilhar-se com as criaturas, chamar as criaturas de irmãos e irmãs não tem nada de romantismo irracional, diz o Papa, mas tem consequências sobre as escolhas que fazemos.

Muito mais se poderá ler nas quase 200 páginas, verdadeira cachoeira de água límpida, despejada por Francisco na imundície em que se tornou o mundo depauperado pela ganância e pela cultura da morte. Com a Laudato Si’ O Papa fala ao mundo que está colocando a sua Igreja, mais uma vez, “em saída” para curar as feridas e as fragilidades de um mundo enfermo. Fazer-nos a todos, franciscanos ou não, missionários de uma nova humanidade, recriada à luz da sabedoria divina, é o que podemos esperar deste grande presente que nos oferece o Papa Francisco.

 

Dom João Bosco – Bispo de Osasco – SP