Dublin

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Tive oportunidade de representar o Brasil no 9º Encontro Mundial das Famílias com o Papa Francisco, realizado na Irlanda, na cidade de Dublin. Comigo estavam o padre assessor Nacional da Pastoral Familiar, pe. Jorge Alves Filho e o casal coordenador nacional da Pastoral Familiar, Luís e Katia Stolf. Temos trabalhado juntos nestes últimos anos, incentivando e orientando os grupos de Pastoral Familiar que se tornaram mais numerosos em todo o país. Encontramos lá outros brasileiros que foram ao evento e muitos brasileiros residentes, sobretudo jovens, que passam uma boa temporada na Irlanda para aprender o inglês, estudando e trabalhando. Presidi uma missa em português, na Paróquia dos Capuchinhos, que lotou a Igreja de brasileiros.

Dom João com equipe celebrativa após missa na comunidade brasileira, da Irlanda. Foto: Facebook Pastoral Familiar Nacional

Gente de todas as línguas

Os encontros mundiais acontecem desde o tempo do Papa João Paulo II, a cada três anos, e envolvem a participação de milhares de pessoas de todo o mundo. Em geral são três dias de estudos, palestras com tradução simultânea, painéis e oficinas temáticas, celebrações, e mais dois dias com a presença do Papa que, primeiro visita as autoridades do país, o clero e algumas instituições importantes, depois se encontra com as famílias em dois momentos de grande público: uma Festa das Famílias, onde ele fez o primeiro pronunciamento e uma missa de encerramento de todo o evento, com uma bela homilia e mensagem ao mundo.

A Irlanda

A sede deste 9º Encontro foi a Irlanda, país de profundas raízes católicas. É uma ilha, próxima da Inglaterra, que conseguiu a sua independência do Reino Unido, mas continua falando o inglês, embora tenha ainda uma língua própria, o gaélico, falado por menos pessoas, porém, conservado como uma riqueza de suas raízes culturais. Ao se separar do Reino Unido, sobrou uma pequena parte da ilha, no norte, ainda ligada ao domínio inglês, e de tradição protestante. Até poucas décadas, era violento o combate entre os extremistas protestantes do norte e os católicos do sul, embora essa guerra fosse de cunho político, mais que religioso. Hoje não há mais aquela violência, porém ainda restam rusgas e disputas legais. A religião, embora de raízes tão profundas, vem sendo corroída pelo ateísmo geral da Europa. E o pior, a Igreja irlandesa foi assolada por histórias tenebrosas de pedofilia e abusos sexuais que foram encobertos no passado. E nas vésperas da chegada do Papa, novos escândalos surgiram também nos Estados Unidos, orquestrados por grupos ideológicos bem articulados.

O Papa veio para o Encontro com a missão de motivar a Igreja irlandesa a um novo impulso evangelizador. Mas teve que manifestar-se duramente humilhado diante desses fatos e acusações, afirmando que só existe um caminho de recuperação, que passa pelo reconhecimento dos erros e do rigoroso cuidado no futuro.

O povo fiel

Os cristãos fiéis e observantes são infinitamente mais numerosos e estão vencendo as provações. Aplaudiram o Papa nas ruas, acolheram generosamente os participantes, receberam as famílias nas suas casas, eram muito solícitos em atender às necessidades de cada visitante. Posso dizer que o “Encontro Mundial das Famílias” teve como marca, neste ano, a alegre e fraterna convivência familiar. Famílias inteiras com muitas crianças e jovens povoaram os espaços da RDS, um imenso complexo de salões e parques, arena de esportes e stands de exposição. Além das palestras, painéis e oficinas temáticas, houve também amplo espaço para catequese e diversão das crianças, tendas de oração e confissões, praças de alimentação abundantes. Foi, portanto, uma festa completa em três dias de congresso. Os eventos onde esteve o Papa foram lotados: em torno de 80 mil participantes do Festival das Famílias e 500 mil participantes da missa de encerramento. Foi o total dos ingressos disponíveis.

A Pastoral Familiar

Para a Pastoral Familiar, no mundo todo, o Encontro Mundial terá, além da repercussão imediata, um efeito de longa duração. Os conteúdos apresentados nos painéis e workshops se difundirão pelo mundo. Serão repassados, pelos que lá estiveram, para os seus grupos locais. Os conceitos da Exortação Amoris Laetitia, do Papa Francisco, alguns deles controvertidos e de lenta absorção, irão sendo conhecidos e colocados em prática. A Família, questionada em seus valores pela cultura atual, irá superando os obstáculos, pois a verdade sempre vence e a aparente vitória do mal e da mentira, mais dia menos dia, cairá.  A Amoris Laetitia foi a base de todo o conteúdo apresentado no evento. É um ensinamento vivo, ainda por ser conhecido em muitos aspectos. Acolher a todos, mesmo os que vivem de forma irregular, afirmar claramente o sentido da família, homem e mulher abertos à procriação e ao amor indissolúvel, condenar o crime do aborto sem ressalva, é o caminho da Pastoral Familiar. E a palavra firme e alegre do Papa confirmou a todos os que participaram do evento.

Papa no estádio de Dublin para a Festa das Famílias. Foto: Vatican Media

O Papa Francisco e a Igreja

O Papa tem sofrido mais oposição que antes. Acabou aquela lua-de-mel inicial com o Papa não europeu e sorridente. Sua pregação em favor dos pobres e em favor da vida provoca ira de governos e grupos que vão na contramão do Evangelho. E há dentro da igreja quem entra nesse jogo contra. São grupos ultraconservadores que se unem ao que existe de pior na cultura do mundo, para criticar e julgar o ensinamento de Francisco. O Papa não se defende, confessa os erros da Igreja, pede as orações de todos.  Como Cristo, se porta com serenidade diante de bofetões e cusparadas. Sabe que a ressurreição é mais forte que a morte. Cumpre com fidelidade sua missão. Foi o que vi na Irlanda.

Dom João Bosco, ofm
Bispo Diocesano de Osasco

A convivência familiar alegre e fraterna foi um marco do 9º Encontro Mundial das Famílias, que terminou no dia 26 de agosto, em Dublin, na Irlanda. Durante os três dias de congresso, famílias inteiras com muitas crianças e jovens povoaram um imenso complexo de salões e parques, arena de esportes e stands de exposição.

Além das palestras, painéis e oficinas temáticas, em várias línguas, houve também amplo espaço para catequese e diversão das crianças, tendas de oração e confissões.

Reprodução

Para o bispo de Osasco (SP) e presidente da Comissão Episcopal Pastoral para a Vida e Família da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom João Bosco Barbosa de Sousa, o congresso foi uma festa completa. A Amoris Laetitia foi a base de todo o conteúdo aprofundado no evento.

“É um ensinamento vivo do papa Francisco, ainda por ser aprofundado e vivido. Acolhe a todos, mesmo os que vivem de forma irregular. Afirma claramente o sentido da família, homem e mulher abertos à procriação e ao amor indissolúvel. Condena o crime do aborto sem ressalva. Sua palavra firme e alegre tocou a todos que participaram do evento”, disse.

Dom Bosco presidiu uma missa com peregrinos e a comunidade brasileira que vive na capital da Irlanda. A celebração, em intenção de todas as famílias e em ação de graças pela realização do Encontro, foi na Igreja Santa Maria dos Anjos, dos padres capuchinhos, onde os brasileiros realizam suas atividades regularmente.

Mesmo em meio a tantos protestos, a visita de Francisco causou grande alvoroço: povo nas ruas, aplaudindo com alergia. O Festival das Famílias com a presença do Papa lotou, além da missa de encerramento, no Phoenix Park, que bateu a lotação máxima de 500 mil fiéis.

“A Irlanda continua sendo um país muito católico, apesar do ateísmo propagado por todos os meios. Uma igreja que sofre pelos erros do passado, e o papa os reconhece os erros e diz que não podem mais acontecer”, ressaltou dom Bosco.

O bispo de Osasco (SP) ressalta ainda que o papa tem sofrido mais oposição que antes. Acabou aquela lua-de-mel inicial com o papa não europeu e sorridente.

“Sua pregação em favor dos pobres e em favor da vida provoca ira de governos e grupos que vão na contramão do Evangelho. E há dentro da igreja quem entre nesse jogo contra. O Papa não se defende, confessa os erros da Igreja, pede as orações de todos. Como Cristo, se porta com serenidade diante de bofetões e cusparadas. Sabe que a ressurreição é mais forte que a morte. Cumpre com fidelidade sua missão. Foi o que vi na Irlanda”, destaca dom Bosco.

Roma será a sede do 10º Encontro Mundial das Famílias, em 2021. A cidade italiana receberá o evento no ano do quinto aniversário da exortação apostólica Amoris Laetitia, do Papa Francisco, sobre o amor na família.

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Os peregrinos brasileiros que estavam em Dublin para o Encontro Mundial das Famílias participaram na sexta-feira (24/08) de uma missa com a comunidade brasileira que vive na capital da Irlanda. A celebração em intenção de todas as famílias e em ação de graças pela realização do Encontro foi na Igreja Santa Maria dos Anjos, dos padres capuchinhos, onde os brasileiros realizam suas atividades regularmente.

Bispos, padres e famílias brasileiras presentes na Irlanda foram recebidos pela comunidade de brasileiros que vivem no país

A missa foi presidida pelo bispo de Osasco (SP) e presidente da Comissão Episcopal Pastoral para a Vida e Família da CNBB, dom João Bosco Barbosa de Sousa, e concelebrada pelo bispo de Primavera do Leste-Paranatinga (MT), dom Derek Byrne e por padres de várias partes do país. Entre eles o assessor nacional da Pastoral Familiar, padre Jorge Filho.

“Que alegria poder estar aqui e ser acolhido com tanta simpatia. O grupo que veio para o encontro foi separado dos demais para receber uma benção especial. Acredito que a oração dos que estão em Dublin há mais tempo fortalece a nossa alegria. E nós vamos levar essa alegria de rezar por uma comunidade que está tão longe, mas que bate o coração no mesmo ritmo de todos nós”, disse dom João Bosco.

Em sua homilia na festa de São Bartolomeu Apóstolo, o bispo destacou a importância de testemunhar a fé e de ser uma família mesmo distante de casa e dos familiares.

Proximidade entre país sede e peregrinos

O bispo referencial para a Pastoral Familiar no Brasil enfatizou o bom acolhimento que os peregrinos receberam durante os três dias de Congresso Pastoral. “É a segunda vez que participo do Encontro Mundial das Famílias e aqui em Dublin a gente percebe uma familiaridade, uma proximidade com as pessoas, desde aqueles que organizam os eventos, os voluntários, o clero, aqueles que vieram de muitas partes. Esta semana foi muito rica de reflexões. São muitos temas que vamos levar para casa”, disse.

Sobre a missa com a comunidade brasileira:

“A gente percebe o mesmo sentimento, de família. E eu gostaria de transmitir a todos os ouvintes da Rádio Vaticano que precisamos nos unir em torno desse grande motivo que é a família, o dom da família. Porque o Evangelho da família é verdadeiramente alegria para o mundo”.

Amoris Laetitia no centro das atividades

Durante os três dias de Congresso Pastoral, mais de 60 palestras e debates foram ministrados no centro de convenções RDS, que teve ainda atividades específicas para crianças e jovens. Todas as exposições partiram do tema central do Encontro: Evangelho da Família, alegria para o mundo, com base na exortação apostólica pós-sinodal Amores Laetitia.

“Amores Laetitia é um marco, um fundamento geral para todas as reflexões que a gente faz hoje em torno da família. Na nossa comissão episcopal, em todos os trabalhos que fazemos no Brasil, a gente sente que ela trouxe grande revigoramento para s as famílias e para a pastoral familiar. Note que ela não está desligada de todo um passado muito forte, muito bonito. Basta lembrar a Familiaris Consorsio, de Joao Paulo II, por exemplo”, pondera dom João Bosco.

Comissão episcopal tem duas missões principais

De acordo com o bispo referencial, entre as atribuições da Comissão Episcopal Pastoral para a Vida e Família da CNBB estão a organização da Pastoral Familiar e a formação permanente. “O trabalho da comissão se divide em duas partes muito grandes. Por um lado a organização da Pastoral Familiar no Brasil inteiro, estamos numa batalha para formar e estruturar esses grupos paroquiais, diocesanos e regionais em todo o país. Também temos o trabalho de formação, que deve chegar a toda a nossa gente, não só aos membros da Pastoral, a todas as comunidades. A família deve ser o eixo de toda a evangelização”, concluiu.

Rafael Pierobon conversou para Vatican News com Dom João Bosco