Assembleia dos Bispos

0 226

Durante a primeira entrevista coletiva da 56ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom João Bosco Barbosa de Sousa, bispo de Osasco (SP), falou à imprensa sobre as várias temáticas que serão abordadas no evento. Além do tema central: “Diretrizes para a Formação dos Presbíteros da Igreja no Brasil”, mais de trinta assuntos serão trabalhados no intuito de buscar a plena participação de todo o episcopado brasileiro nos dias de atividades.

Dom João lembrou que as decisões tomadas na Assembleia não se referem a uma determinada circunscrição ou Diocese. São assuntos que dizem respeito a todo o episcopado e assuntos relevantes para a Igreja e a sociedade brasileira. “A Assembleia Geral da CNBB é um evento eclesial que pretende buscar a unidade da Igreja. Nenhum assunto é decidido sem que se gaste bastante tempo ouvindo as opiniões dos irmãos bispos, contestando, se for o caso, estudando em grupos e retornando para a grande plenária. Os textos que são aprovados são revirados de todos os jeitos para que se chegue a uma unanimidade que é importante para que a Igreja caminhe”, declarou.

Ainda segundo o bispo, essa unidade acontece porque se tem essa convicção de que a Igreja é conduzida pelo Espírito Santo e há uma grande abertura  por parte do episcopado para se chegar naquilo que é o essencial para que a ação evangelizadora possa acontecer.

Temas prioritários

Dentre os temas que serão abordados durante a Assembleia, a evangelização nos centros urbanos ganhará destaque.  Dom João Bosco alertou que essa é uma questão de analise de conjuntura que interessa a Igreja.

Outro tema que também implicará a reflexão aprofundada do episcopado é a manutenção do estado laico. “Muitos entendem o estado laico como um estado contra as religiões ou um estado ateu. Um estado laico é aquele onde todas as religiões tem o seu espaço e onde a liberdade religiosa realmente existe. O estado laico não se compromete com nenhuma religião e favorece a todas. Se temos um estado laico, temos uma nação religiosa”, explicou.

A entrevista coletiva foi conduzida por dom dom Darci José Nicioli, presidente da Comissão Episcopal Pastoral para a Comunicação da CNBB e também contou com a participação do arcebispo de Mariana, dom Geraldo Lyrio Rocha e o arcebispo de Porto Alegre, dom Jaime Spengler.

0 664
Assembleia sul1 (2)
Fotos: Ana Lúcia Zombardi

A 79ª Assembleia dos Bispos do Regional Sul 1 da CNBB foi iniciada nesta terça-feira, 07 de junho, na Capela Nossa Senhora da Esperança do Hotel Rainha do Brasil de Aparecida, SP, com a Celebração de Abertura (Hora Média) presidida pelo presidente do Regional dom Airton José da Silva, arcebispo metropolitano de Campinas, SP. Em sua breve reflexão sobre 1Cor 12,24b.25-26, dom Airton falou sobre o Corpo Místico de Cristo, cujo texto é inspirado “pela fé cristã de Paulo, fé em Jesus ressuscitado”.

“Paulo acentua principalmente a unidade desse corpo, que reúne todos os cristãos no mesmo Espírito e identifica-o com a Igreja. Esse corpo, concebido como uma pessoa, tem o Cristo como Cabeça. Os membros da Comunidade de Fé, por isso, pertencentes ao Corpo Místico de Cristo, que é a Igreja, tendo recebido um único e mesmo Espírito, são chamados a dar testemunho de sua pertença e a viverem no amor fraterno, na caridade. Eis o grande sinal para o mundo”, completou o arcebispo.

A primeira sessão conjunta ocorreu no Auditório Santo Afonso, sob a presidência de dom Airton José da Silva, dom Pedro LuisStringhini e dom Júlio EndiAkamine. Após a acolhida do presidente do Regional, dom Airton, o cardeal arcebispo de Aparecida, dom Raymundo Cardeal Damasceno Assis falou da alegria em recepcionar os participantes da Assembleia. O secretário dom Júlio comunicou as ausências justificadas, as mudanças no episcopado e os jubileus dos bispos.

O primeiro assessor, Cardeal Damasceno Assis apresentou uma síntese da Exoertação Apostólica “AmorisLaetitia”, sobre o amor na família. Descreveu os pontos principais dos capítulos 01 a 06. “A Exortação Apostólica chama a atenção pela sua amplitude e articulação. O Papa escreve que nem todas as discussões doutrinais, morais ou pastorais devem ser resolvidas através de intervenções magisteriais”, falou o cardeal. “O Papa articula suas reflexões a partir das Sagradas Escrituras no primeiro capítulo, que se desenvolve como uma meditação acerca do Salmo 128. A Bíblia aparece cheia de famílias, gerações, histórias de amor e de crises familiares e, a partir deste dado, pode meditar-se como a família não é um ideal abstrato, mas uma tarefa artesanal”, disse.

Na sequência, dom Raymundo descreveu “a realidade e os desafios das famílias”; “o olhar fixo em Jesus: a vocação da família”; “O amor no matrimônio”; “O amor que se torna fecundo”, fazendo uma síntese do pensamento e dos escritos do Papa Francisco, com a recomendação de não se ler o documento rapidamente, mas pausadamente, refletindo e estudando para melhor assimilar seu conteúdo”.

Assembleia sul1 (1)
Fotos: Ana Lúcia Zombardi

Na sequência o cardeal Arcebispo de São Paulo, dom Odilo Pedro Scherer  falou “sobre as perspectivas
pastorais da Exortação, sua aplicação na vida da Igreja e da necessidade de se ter uma nova |Pastoral Familiar. Dentro de sua síntese, o cardeal mostrou objetivamente que o papa Francisco dá muitas pistas de ação para viver o matrimônio, a vida em família e a família na sociedade.

Como pontos de destaque, dom Odilo falou, como perspectivas pastorais, de “reforçar a educação dos filhos”; acompanhar, discernir e integrar a fragilidade”, diante de situações complexas ou irregulares; Espiritualidade conjugal e familiar”, que é feita de milhares de gestos reais e concretos, e que a família não está pronta: é preciso caminhar. “A Exortação pretende reafirmar com força não o “ideal” de família, mas a sua realidade rica e complexa. Há nas suas páginas um olhar aberto, profundamente positivo, que se nutre não de abstrações ou projeções ideais, mas de uma atenção pastoral à realidade”, concluiu.

0 1123

O fato de estarem juntos mais de trezentos bispos, pelo espaço de dez dias deveria ter, por si só, um grande destaque de imprensa. No entanto, tirando os veículos próprios da imprensa católica, poucas notícias circularam pela mídia. O assunto principal desses dez dias de trabalho intenso dos bispos passou despercebido pela grande imprensa: diz respeito a pouco mais de 100 a 150 milhões de brasileiros, a parcela maior da nossa Igreja, os leigos e leigas. Cada ano,em torno de 500 mil novos batizados, no nosso país, passam a fazer parte da Igreja.

AG-CNBBQuem são os leigos, como vivem, qual o papel desse imenso número de irmãos, na própria Igreja e especialmente na sociedade, esse foio tema central da Assembleia. Os bispos estão pensando no longo prazo, no fermento que transforma a massa. A grande imprensa está só interessada no momento presente, se a Presidente sai ou não sai, os milhões que foram roubados. Até chega a causar interesse o novo documento que saiu das mãos do Papa, sobre a Família. Também isso diz respeito a milhões de vidas, as famílias do mundo inteiro. Mas o interesse da imprensa se restringe em saber se o Papa fala dos gays e dos divorciados. Como é pobre esse nosso mundo da informação, apesar da abundância de palavras. Por isso, se queremos um alimento mais sólido sobre a vida da Igreja, seus caminhos, suas reflexões e propostas, devemos ir aos documentos que serão publicados, fazendo-os ressoar em nossos encontros, homilias, associações e práticas pastorais. Faço aqui um resumo dos principais pontos que foram refletidos pelos bispos nesta 54ª Assembleia Geral da CNBB.

Sujeitos na Igreja – O documento chamado agora “Cristãos Leigos e Leigas, Sujeitos na Igreja e na Sociedade, Sal da Terra e Luz do Mundo” vem sendo trabalhado desde as duas últimas assembleias. A Comissão Episcopal para o Laicato preparou primeiro um documento de estudos, que teve o número 107, que depois ganhou uma segunda versão, com o número 107-A, agora foi totalmente refeito, a partir das reflexões de bispos e leigos. Tornou-se um documento oficial da Igreja, para ser estudado e aplicado em todas as comunidades. Até o Concílio Vaticano II havia pouca compreensão e espaço para atuação dos leigos. Só o clero tinha nas mãos as decisões. A própria palavra “leigo” tinha um sentido negativo, de desconhecimento, de submissão. O Concílio rompeu esse conceito. Houve avanços e recuos nesses cinquenta anos. A Exortação “Christifidelis laici” (do Papa João Paulo II, 1988) foi um marco muito forte nesse trajeto. O novo documento da CNBB refaz esse caminho, projeta o Leigo e a Leiga como sujeitos na Igreja, sempre em comunhão com a hierarquia, porém com seu espaço próprio, sua organização e, sobretudo, o seu papel imprescindível na sociedade e na transformação do mundo. O corpo de Cristo no mundo ficaria mutilado, se não houvesse a presença e a atuação dos leigos. O documento aponta caminhos muito práticos de formação, organização, participação e ação transformadora de um laicato ativo e fiel a Cristo, esse é o propósito do tema central da Assembleia.

Pensando o Brasil – Outra reflexão que ocupou os Bispos foi expressa com este título: “Pensando o Brasil”. Não se trata de um documento oficial, e nem poderia ser, pois, é uma proposta de debate. Será publicado como terceiro volume de uma coleção das Edições CNBB. O primeiro foi sobre as eleições de 2014. O segundo foi um estudo mais sociológico sobre a desigualdade social no Brasil. Esta terceira reflexão procura fazer um retrato da crise atual, não apenas essa crise momentânea que afeta a presidência, mas de forma mais profunda: a crise dos valores, a visão macroeconômica, o declínio dos direitos sociais e também o enfraquecimento das instituições como a política, a família, a própria Igreja. Não é surpresa que o tema tenha despertado discussões acaloradas, pois dentro do episcopado há visões diferentes. O texto aprovado no final é forte e tem uma linguagem adequada para provocar o debate à luz da doutrina social da Igreja, com outros pensadores, educadores e atores da sociedade.  É uma análise que tem, claro, uma visão política definida, embora não partidária. A CNBB, em meio à polarização rancorosa atual, muitas vezes tem sido alvo de acusações levianas, do tipo “é comunista”, “é partidária”. São afirmações falsas e por vezes intencionalmente perversas. O fato é que hoje, em meio a essa crise de valores, não há nenhuma outra entidade, de porte, no país e até no mundo, que seja referência moral, como o é a Igreja católica, mesmo trazendo em seu meio as sadias divergências e diferenças de expressão. Seu papel ético na sociedade é imprescindível.

Amoris Laetitia – Não houve um documento da CNBB sobre esse assunto, mas foi objeto de estudo dos bispo credito imagem internetBispos a nova Exortação Pós-Sinodal do Papa Francisco sobre O Amor na Família. Assinado no dia 19 de março, dia de São José, o documento, tão esperado sobre as grandes questões levantadas nos últimos dois anos sobre a vida familiar, foi surpreendente. O Papa Francisco é sempre surpreendente. Não faz nenhuma mudança na doutrina da Igreja, não altera a disciplina, aliás, se liga fortemente à tradição sempre defendida pela Igreja. A surpresa está no aspecto pastoral: como incentivar o cultivo do amor familiar, mesmo diante das imperfeições e dificuldades que fazem parte da vida. A palavra Alegria ressoa em todo o documento, como a dizer vale a pena amar, pois o amor é a alegria da vida. Também tratamos entre os bispos a insistência do Papa na proximidade, na atenção e acolhida, a integração progressiva das famílias que vivem de forma irregular e que devem ter seu espaço no amor pastoral da Igreja. A ética do cuidado e a lógica da misericórdia nos diz que ninguém pode ficar afastado do amor de Deus, seja qual for a sua condição. A exortação Amoris Laetitia é longa e detalhada nas questões do amor familiar e deverá ser tema de muitas páginas neste nosso jornal.

A nulidade matrimonial – Ligado ao assunto anterior, foram estudados pelos bispos também os procedimentos para colocar em prática a reforma do processo de nulidade matrimonial que regulariza a situação de muitos casais que, após o fracasso do matrimônio religioso, vivem separados ou em segunda união. A Igreja não permite um segundo matrimônio religioso, a menos que haja razões para o primeiro ser declarado nulo. O processo jurídico de nulidade, antes demorado e caro, foi simplificado pelo Papa Francisco, que também possibilitou a criação de novos tribunais eclesiásticos nas dioceses, para tornar mais ágil e menos custoso o processo. Com a orientação agora oferecida aos bispos, logo poderemos ter o tribunal eclesiástico funcionando em nossa diocese.

A Pastoral do Dízimo – Também este assunto vem sendo trabalhado desde o ano passado por uma equipe que apresentou propostas e orientações para a Pastoral do Dízimo. Não se trata apenas de estratégia de arrecadação. O dízimo é um ato de reconhecimento de que Deus é o Senhor de tudo e o doador de todos os bens. Se o dízimo não for expressão da nossa gratidão a Deus, se não mostrar a confiança que temos nas mãos do Pai, estamos no caminho errado. Seu fundamento, portanto, é a experiência de Deus e o amor fraterno. O texto apresentado aos bispos será publicado em breve. Deverá orientar nossas comunidades quanto à organização, motivação e correta aplicação do dízimo. Nos nossos dias, as exigências da lei são cada vez mais estritas no sentido da correção e transparência. Às vezes até nos aborrecemos com tanta exigência. No entanto, as leis nem deveriam ser incômodas se temos em conta o cuidado, muito maior, que devemos ter com os bens por serem dons do Criador, por servirem à fraternidade, por construirmos com essa prática o reino de Deus.

Oração e partilha – Os bispos rezaram juntos. A imagem deles, em volta do altar na Santa Missa de cada dia, rezando os salbispo credito site Diocese de Cachoeiromos, olhando confiantes para Maria, não passou despercebida em todo o Brasil. Houve dois dias de retiro conduzidos pelo Cardeal Gianfranco Ravasi, no qual os bispos também tiveram oportunidade de se confessar e depois caminhar em peregrinação até a Porta Santa da Misericórdia. A Assembleia teve ainda outros encaminhamentos, decisões que irão chegando pouco a pouco até as comunidades, fazendo-nos uma só Igreja, de muitos irmãos. Assuntos dos Regionais, das Comissões pastorais, encontros reservados entre os bispos e o Sr. Núncio apostólico, apresentação de experiências pastorais de grande proveito. A preciosa unidade construída nesses dias, e tantos outros dons de Deus, escapam aos interesses da grande imprensa. Melhor que nem percebam. Não deixarão por isso de dar frutos a seu tempo.

Dom João Bosco, ofm
Bispo Diocesano de Osasco