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Bispo CNBB

Pela primeira vez, em 10 anos de episcopado, não pude participar da Assembleia Geral anual da CNBB, ocasião em que os quase 300 bispos diocesanos e muitos bispos eméritos se reúnem, em Aparecida, durante 10 dias, e ali percorrem os principais temas em debate na Igreja do Brasil. Ali são estudados e aprovados os textos que nortearão o caminho das dioceses, decisões pastorais são tomadas envolvendo a todos, ali se ouvem testemunhos bonitos e experiências pastorais enriquecedoras. É um encontro de irmãos, e muitos só se veem nessa ocasião. E é muito bom encontrar-se, rezar juntos, trocar ideias, oferecer e receber ajuda em situações específicas.

Nesta última Assembleia Geral, realizada entre os dias 25 de abril e 5 de maio, eu não pude estar presente, convalescendo de uma cirurgia, porém, mesmo tendo de ficar o corpo em repouso, a cabeça e coração estavam lá. Pude experimentar a certeza de que nossos encontros, embora nos exijam tempo e paciência, são essenciais: assim são as reuniões do clero, os dias de formação, os momentos celebrativos, a oração em conjunto, cada minuto comunitário se reveste de uma importância, que faz diferença no andamento da nossa missão de pastores, de agentes do Evangelho, de cristãos participantes. Por sentir essa importância e as consequências na vida pastoral, dediquei-me, mesmo do leito, a acompanhar a Assembleia Geral em todos os seus passos. Acompanhei pela TV Aparecida a missa de cada dia, com as Laudes, olhando para os rostos conhecidos e novos dos irmãos bispos. Recebi a programação de cada dia através da internet. Pude ler os textos de estudo que estavam sendo apresentados e discutidos. Cada dia, cada sessão, cada celebração. E assim me senti participante, para poder oferecer à diocese os frutos recém-amadurecidos saídos dos debates e apresentações. Os textos, depois de prontos são publicados, ou como matéria noticiosa, ou como livros que estarão nas livrarias católicas. Não consigo resumir todos aqui, pois a pauta era longa, com mais de trinta grandes assuntos, além das pequenas comunicações. Chamo a atenção para um documento que poderá ser encontrado nas livrarias católicas, em breve, essencial para os sacerdotes, catequistas, agentes de cada uma das pastorais, movimentos, e todos os cristãos participantes. Ele terá o número 107, da série azul, de documentos da CNBB, e terá o nome: “INICIAÇÃO À VIDA CRISTÃ: itinerário para formar discípulos missionários”.

O tema central, a Iniciação – Este foi o assunto que tomou mais tempo para ser estudado e aprovado: deverá sair como documento azul, como são os textos oficiais da CNBB. “Iniciação” era o modo como os cristãos, desde os primeiros séculos, preparavam aqueles que queriam seguir Jesus Cristo, através de um itinerário de fé, celebrações, e de práticas concretas que os transformavam em discípulos missionários de Jesus Cristo, não apenas conhecedores da doutrina do Mestre, mas cristãos comprometidos, prontos para o apostolado ou até mesmo para o martírio. O tema se tornou frequente nos últimos anos, sobretudo após a publicação do Ritual da Iniciação Cristã de Adultos (RICA) e, aqui mesmo em nossa diocese, esse itinerário foi abraçado ou adaptado por muitas paróquias. Mas faltava uma proposta pastoral para pôr em prática essa experiência. Faltava, sobretudo, uma visão que englobasse toda a preparação dos sacramentos, desde o batismo de crianças, a formação eucarística, a crisma, os encontros de noivos, e a preparação para os demais sacramentos numa caminhada sólida de fé que envolvesse alegremente não só catequistas e catequizando, mas toda a comunidade da Igreja nessa grande proposta de ser uma Igreja de discípulos missionários, comprometidos com a Causa do Reino. É essa a proposta do presente documento.

Depois de apresentar brevemente a experiência dos primeiros cristãos e o caminho feito até os dias de hoje, o Documento 107 busca os fundamentos da evangelização, questionando muitas práticas catequéticas de hoje, mas colocando como horizonte a pergunta: que tipo de igreja queremos formar com a catequese de hoje? Os desafios que a cultura atual apresenta para as comunidades de Igreja são tão grandes, que corremos o risco de nos tornar pequenos núcleos fechados entre as paredes da Igreja, sem contato com o mundo. Abraçando o caminho da iniciação, e da reiniciação daqueles que são batizados, mas estão afastados, buscaremos levar o evangelho a todos os recantos, sem desânimo, com alegria.

Projeto Diocesano – O primeiro passo proposto pelo documento é a criação de um Projeto Diocesano de Iniciação à Vida Cristã. Existem experiências esparsas, iniciativas mais tímidas ou mais ousadas, mas todos devem caminhar juntos. Para a confecção de um Projeto assim é  necessário investimento. Devem estar envolvidos bispo e padres, catequistas e ministros formadores e seminaristas, responsáveis pela preparação do batismo e noivos, movimentos e grupos de espiritualidade. É preciso criar material formativo apropriado. Um projeto feito em conjunto, assumido por todos, renovará a Igreja de ponta a ponta, enriquecerá a diocese com leigos atuantes e vocações ministeriais em abundância, será crescimento visível do Reino.

Está posto o desafio. Teremos grandeza de alma para abraçar algo assim, ou ficaremos cada grupo com suas pequenas iniciativas, arremedos tímidos de missão, aulas de catequese que as crianças não curtem, encontros de noivos curtos e de pouco proveito. Não. Queremos uma Igreja viva e participativa, corajosa e convertida, como foram os primeiros cristãos. O catequizando atual e também os futuros, merecem esse esforço.

Dom João Bosco, ofm

Bispo Diocesano de Osasco