Entrevista com Carla Dias, a primeira missionária do Projeto Pemba

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Carla Dias foi a primeira missionária enviada para a Missão Pemba, projeto assumido pela Diocese de Osasco e que levará seis missionários para a África, por um período de dois anos. A missa de lançamento do projeto “Pemba: A África nos espera” aconteceu no dia 01 de outubro na Catedral Santo Antônio.

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Na entrevista concedida ao BIO – Boletim Informativo de Osasco, Carla fala das expectativas e realidade do trabalho de evangelização na África.

BIO: Como foi a sua caminhada cristã? Em quais paróquias, pastorais ou movimentos atuou?

Carla: Participo desde criança da “Matriz” Santo Antônio, hoje Catedral. Na época a Catedral era evangelizada pelos padres passionistas e desde então me identifiquei muito com essa espiritualidade, porque me ajudou a descobrir a Paixão de Cristo como a maior obra do Amor de Deus pela humanidade. Lá, recebi a primeira Eucaristia no ano de 1981 e fui crismada por Dom Francisco em 1987. Iniciei a atividade pastoral como catequista e depois descobri minha paixão pela Liturgia. Durante doze anos (1998-2010) exerci a missão de coordenar a Pastoral Litúrgica da Catedral. No ano de 2013 assumi a Pastoral do Batismo e deixei a coordenação em 2015 para seguir em missão para Pemba. Antes de retornar à Pemba nesse ano de 2016 organizei a Equipe de Acolhida para as Peregrinações à Porta Santa na Catedral.

 

BIO: Quando despertou em você o desejo de assumir a vocação missionária?

Carla: Conheço Dom Luiz Fernando desde minha adolescência. Quando da sua nomeação como Bispo de Pemba, ele me convidou para coordenar a Liturgia da sua Sagração Episcopal e então, durante os trabalhos de preparação daquela celebração e de modo particular durante a missa, senti um chamado muito forte para “sair em missão” colocando os meus dons a serviço de Deus e da Igreja na Diocese de Pemba. Fui discernindo os sinais que Deus foi me dando sobre se realmente esta era a Sua vontade. Também partilhei com meu diretor espiritual, Pe.Augusto Canali, que atualmente vive em Roma como Consultor Geral da Congregação Passionista, e com Monsenhor Claudemir, a quem sou imensamente grata por tudo que aprendi com ele durante os  17 anos de trabalho pastoral na Catedral.

 

BIO: O que seria uma missão ‘ad gentes’ e por que optou por ela?

Carla: Missão “Ad Gentes”é uma Missão “Para as Nações”, conforme o próprio Jesus assim convocou: “Ide pelo mundo inteiro e anunciai a Boa Nova a toda criatura!”(Mc 16,15). O Decreto Conciliar Ad Gentes promulgado pelo Papa Paulo VI em 07 de dezembro de 1965 apresenta um conteúdo profundo e é um dos documentos mais relevantes que resultaram do Concílio Vaticano II. Eu podia ter continuado a fazer isso na minha casa, no meu trabalho profissional e também na minha paróquia e nossa diocese. Mas, sentia também que podia ousar um pouco mais e, rezando sobre a Campanha da Fraternidade de 2015 a qual refletiu sobre o incentivo do Papa Francisco a uma “Igreja em saída” decidi assumir o desafio de cooperar na evangelização do povo de Moçambique com espírito de serviço e paixão missionária.

 

 

BIO: De quem partiu o convite para a Missão Pemba?

Carla: Durante os preparativos para a Sagração Episcopal de Dom Luiz, ele me falou das necessidades da Diocese de Pemba na questão da Economia e Administração e, como sabe da minha formação e experiência profissional nesta área, fez um convite para que eu pensasse em ajudá-lo de alguma forma a enfrentar os desafios que iria assumir como bispo. Depois, quando Dom João chegou em nossa diocese, partilhei com ele sobre o chamado de Deus que vinha sentindo e sobre o convite de Dom Luiz. Encontrei em nosso bispo uma receptividade enorme, além da disposição de iniciar um Projeto Missionário de cooperação entre as duas dioceses (Osasco e Pemba). A minha ida para Pemba como missionária foi o primeiro passo concreto desse projeto. Acredito muito que Dom Luiz e Dom João foram instrumentos de Deus para me chamar para esta missão.

 

BIO: Em algum momento sentiu medo de assumir a missão?

Carla: Sim. Em muitos momentos, desde o início do chamado até a hora de subir no avião. Existia uma incerteza, um medo do desconhecido, de não me adaptar, de fracassar, enfim, o tal “frio na barriga”. Mas, por outro lado, essa incerteza também me encorajava, porque acho que se eu não tivesse nenhuma dúvida é porque eu teria uma “ilusão” e não uma “vocação missionária”. Como diz o Papa Francisco: “Quando nosso Senhor quer nos dar uma missão, quando quer nos dar um trabalho, nos prepara…E esta é a diferença entre a missão apostólica que o Senhor nos dá e uma tarefa humana, honesta, boa… Quando o Senhor dá uma missão, Ele sempre nos faz entrar num processo, num processo de purificação, num processo de discernimento, de obediência, de oração”.

 

BIO: Quanto tempo você esteve na África? E qual trabalho desenvolveu na diocese?

Carla: Ao todo foram nove meses de missão. Durante o segundo semestre de 2015 assumi o Economato da Diocese de Pemba e capacitei as pessoas que administram os recursos da Diocese (Padre Ecônomo e o Conselho de Assuntos Econômicos), através da implantação de processos que auxiliam na gestão das receitas e despesas. Em julho deste ano de 2016 voltei a Pemba para realizar uma assessoria no Colégio Diocesano Dom Bosco, onde pude ajudar com algumas técnicas, controles e processos de gestão bem simples. Apresentei um relatório a Dom Luiz sobre aquilo que pode ser melhorado para aprimorar os resultados da Instituição. Antes de regressar a Osasco implantamos algumas ações e a Equipe Administrativa do Colégio irá dar continuidade a esse novo modelo de gestão.

 

BIO: Quais foram os maiores desafios enfrentados em Pemba?

Carla: Além da adaptação à cultura e ao clima, a grande diferença em termos de realidade.  Embora Pemba seja a capital da Província (Estado) de Cabo Delgado, não pode ser comparada ao conceito de cidade que temos no Brasil. Ruas asfaltadas são pouquíssimas e a pobreza extrema da maioria da população está exposta em quase todos os locais por onde passamos diariamente. Há algumas dificuldades em relação ao abastecimento de água e energia elétrica, a internet às vezes fica indisponível, as opções de comércio e lazer são limitadas. A cultura é algo particular, que tem suas belezas, mas também coisas difíceis de serem aceitas. Devido a história do povo moçambicano, há uma certa rejeição por parte de algumas pessoas. Muitos ainda associam a presença de um estrangeiro com o domínio colonial de épocas passadas.

 

BIO: E o que nos conta de experiência positiva?

Carla: Tenho certeza de que Pemba está fazendo muito mais por mim do que eu posso fazer por eles. A lição mais importante que aprendi até agora foi a de viver e ser feliz com o essencial. Dar valor a um banho tomado, sabendo que o desperdício da água de hoje pode significar a falta de banho amanhã. A alegria das pessoas é contagiante, mesmo vivendo em condições precárias. Uma forte experiência de Deus na oração e no silêncio. Estar em missão na África é reinventar-se, é abrir-se ao dom do Espírito Santo que é o Entendimento de que há coisas que não podemos mudar, há outras que precisamos ter a coragem para mudá-las e de que precisamos da Sabedoria para discernir entre as duas.

 

BIO: Quais os avanços que a Diocese de Pemba já atingiu desde o início do projeto?

Carla: Quando cheguei em Pemba em junho de 2015 a situação do Economato da Diocese era bem difícil em vários aspectos, principalmente pela falta de informação para o Bispo sobre os registros das receitas e despesas, ausência de documentação e relacionamento com funcionários. Hoje o Economato está praticamente organizado e Dom Luiz tem acesso mensalmente a um relatório com todas as informações relativas às atividades econômicas da diocese. No Colégio Diocesano também foi implantado o sistema de controle das receitas e despesas para avaliação do resultado e, também, avaliação de desempenho dos funcionários administrativos e professores. O Diretor Administrativo recebeu um treinamento específico na área de Gestão Escolar e está aos poucos iniciando um processo de reestruturação do colégio.


BIO: Por que você motivaria outras pessoas a fazerem esta experiência missionária?

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Carla: Anunciar com a própria vida que “Deus é Amor e quem ama permanece em Deus”, na minha opinião, é a principal missão de todo batizado, onde quer que ele esteja. Mas, pode-se “avançar para águas mais profundas” onde a necessidade é maior, caso da África e da Diocese de Pemba. Mais do que fazer coisas, é necessário serpresença junto daquele povo, não excluir ninguém, dar testemunho de que nossas diferenças nos enriquecem e que somos todos irmãos em Cristo. Há muitas pessoas que ainda não ouviram a mensagem do Evangelho e nós que tivemos a alegria de receber esse anúncio da fé podemos e devemos colaborar para que Jesus se torne cada vez mais conhecido e amado. Nossa Diocese de Osasco é uma Igreja Particular viva, atuante e tão rica na diversidade de dons. Por que não partilhar isso com os nossos irmãos da Diocese de Pemba e abrir o coração para aprender também com eles?

 

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