XVII Congresso Eucarístico: A família cresce ao redor da mesa

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O Brasil vai se encontrar ao redor da mesa, nos dias 15 a 21 de agosto, quando acontece o XVII Congresso Eucarístico Nacional, em Belém do Pará. Os olhos se voltam para esta região do Brasil, a Amazônia, para percebermos a sua beleza, sua gente corajosa e sofrida, sua fé e suas carências. No centro da mesa, no altar de Belém, estará o alimento forte e verdadeiro da Eucaristia, o corpo do Senhor e o seu precioso sangue. Consagrado e partilhado, este alimento deve comprometer-nos com a causa da evangelização. Vamos, todas as famílias do Brasil, onde quer que estejamos, viver esse acontecimento de graça e comunhão.

Os Congressos Eucarísticos acontecem periodicamente, em nível internacional, nacional ou nas Igrejas locais com a finalidade de celebrar publicamente o dom da Eucaristia, adorar e glorificar o Santíssimo Sacramento, e também para aprofundar o conhecimento, o estudo e a reflexão teológica sobre o mistério da Eucaristia, tão central na vida da Igreja.

Bispo congresso eucaristico

A Eucaristia contém, em síntese, ensinava o santo papa João Paulo II, o próprio núcleo do mistério da Igreja, pois o corpo e o sangue do Senhor, celebrado e consagrado em cada altar do mundo, realiza, de forma intensa e plena, a promessa de Cristo: “Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28,20).

A Igreja vê na Eucaristia não apenas um dom precioso dado por Cristo, entre tantos outros dons, mas vê nela o grande dom, o dom d’Ele mesmo, Cristo, em sua humanidade sagrada. É o próprio dom da salvação que acontece, não como lembrança de um fato passado, mas como presente vivo e atual da Redenção. Mistério de fé e de comunhão que acolhemos com todo o vigor do nosso entendimento e do nosso coração exclamando: “Todas as vezes que comemos e bebemos o Corpo e Sangue do Senhor, anunciamos sua morte, enquanto esperamos sua vinda!”.

A Eucaristia faz a Igreja, cria comunhão e educa para a comunhão. Celebrar, estudar, propor e propagar, fazer crescer a vida eucarística, aparar as deformações que vão se formando ao longo do tempo, nunca é sem propósito. Há muitos recantos por onde essa luz intensa ainda não passou, ou se apagou o seu brilho. Há famílias, mesmo entre os que fazem parte do corpo de Cristo pelo batismo, que não mais dão importância à participação eucarística. No mundo de hoje que oferece tantos atrativos, não poucos trocam a riqueza da Eucaristia por algum brilho efêmero e vazio. O trabalho estafante da semana empurra as pessoas ao refúgio dos sítios e locais de descanso: basta ver como ficam as nossas estradas na ida e na volta dos finais de semana. Pior ainda, quando mesmo estando presentes nas celebrações, uma compreensão reduzida e mal evangelizada do sacramento o faz banalizar como mera devoção, sem a percepção de que o mistério da Cruz e da Ressurreição está ali presente, sem compromisso nem consequências na vida dos que comungam, sem saber bem com que e por quê.

Há também que se buscar uma unidade e uma dignidade sóbria na celebração eucarística que, muitas vezes, vemos comprometida em situações nas quais a própria norma litúrgica é mal compreendida ou modificada por vaidades pessoais, extravagâncias e mutilações dos ritos prescritos a pretexto de atraente inovação. E sobre a instrumentalização do Santíssimo em sessões de cura, nem é bom falar. É certo que a reforma litúrgica do Concílio Vaticano II trouxe grandes vantagens para uma participação mais frutuosa dos fiéis no santo sacrifício do altar, já dizia o santo papa João Paulo II, mas também é certo que há grupos que não a entenderam e não a aceitaram e querem a todo custo retornar ao passado privatizando, ao gosto de um grupo restrito, o dom que é de todos. São sombras que precisam ser dissipadas e o Congresso Eucarístico ajuda a esclarecer e iluminar.

corpus christiConvocando os fiéis a partilhar a Eucaristia em tão grande evento, a Igreja manifesta a sua unidade em Cristo, e ao mesmo tempo a rica diversidade de seus muitos rostos, provenientes de todas as realidades humanas do país, formando uma só família. O rosto da Igreja amazônica se fará brilhante, por ocasião deste Congresso Eucarístico. Serão lembrados os 400 anos da Evangelização da Amazônia, uma igreja heroica, pelas grandes dificuldades enfrentadas desde o início até o presente momento, por missionários que ali investiram toda a sua vida. Igreja de pobres a serviço dos pobres, pontilhada de mártires, que não tiveram medo de enfrentar poderosos interesses econômicos, nem um pouco preocupados por destruir o patrimônio natural da humanidade, nem a vida de povos indígenas e outros pobres, para arrancar seus lucros. O Evangelho ali formou nesses 400 anos um povo corajoso, fiel e santo, que agora nos convida, a todos os brasileiros, a se aproximar de Belém, nome doce do berço natal do Senhor, mas que por etimologia significa “casa do pão”.

A casa do pão, Belém, se faz então mesa Eucarística de toda a família brasileira. Eu estarei presente no Congresso Eucarístico, levando aos presentes uma reflexão sobre a Família e Eucaristia, especialmente com atenção à Exortação Apostólica Amoris Laetitia, onde o Santo Padre chama as famílias a conhecer e a viver a alegria do amor e da comunhão familiar e, explicitamente, menciona a eucaristia vivida em família como centro e fundamento da Igreja doméstica. A propósito da Família, muito se discutiu nos dois últimos anos, com dois Sínodos abrangendo um leque muito amplo de situações aflitivas e conflitivas, carentes de misericórdia e acolhida por parte da Igreja. Para muita gente, a questão principal tratada nos Sínodos foi a possibilidade de a comunhão eucarística ser permitida ou não aos casais em união irregular. Em pleno Ano da Misericórdia, um Congresso que quer viver e mostrar o indispensável vigor da Eucaristia, como remédio especialmente aos feridos e enfermos necessitados da força de Cristo, parece inevitável tratar dessa questão. E será tratada, por certo, em conformidade com os ensinamentos da Igreja, porém, como pede o Papa Francisco, com discernimento, delicadeza e paciência. De fato, a Eucaristia tem tudo em comum com o tema da Misericórdia, celebrada neste ano Jubilar. E a Misericórdia tem caminho amplo e necessário no âmbito da família, portadora de um sonho de Deus a ser realizado com paixão, amor e dor.

Convido a nossa família diocesana a sentar-se à mesa, nos dias do Congresso, e mesmo depois de realizado o Congresso, contemplando as luzes que dali virão a iluminar o nosso caminho de fé e de comunhão.

 

Dom João Bosco, ofm
Bispo Diocesano de Osasco

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