Ouvi, Senhor, o clamor do vosso povo!

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destaqueUma vez mais, o Paraná viveu dor e perdas, deixando lições de coragem e solidariedade

Quando cheguei à Diocese de União da Vitória, logo me foram contadas histórias antigas e recentes de enchentes e inundações, inclusive a maior delas, em que a residência episcopal ficou quase totalmente submersa. Mas havia uma certa crença de que aqueles episódios, agora com mais conhecimento de meteorologia, e procedimentos de controle, não mais aconteceriam. Aqui passei, então, sete anos tranquilos, embora a cada ano houvesse alguma ocasião alagamento, quase sempre sem prejuízos. Já nomeado para a Diocese de Osasco, pensei que não iria viver essa angústia de ver o nosso povo sair de casa com mudança em caminhão, depois de a chuva ter provocado desmoronamentos e bloqueios de estradas, e até perda de vidas em diversos pontos do Estado, como aconteceu desta vez. Entre os dias 9 e 12 de junho, deixei de ir a Brasília, para reunião da CNBB, por não ter estradas para chegar à capital. Todas bloqueadas. Para sair de casa, ou do seminário, somente de barco ou com auxilio de trator; o Seminário sem aulas, pois muitos seminaristas estavam em dia de visita à família e não puderam retornar; depressa, os que estavam em casa se puseram a levar móveis e utensílios para lugar mais seguro, exercício físico de levantamento de peso, e peso na alma, devido à impotência de enfrentar a natureza sempre forte e severa. Recorrer a quem? A Deus, na oração, para que intervenha, pare a chuva, não permita tanta tristeza e sofrimento.

A fé pode ajudar nas horas difíceis

Na trégua das águas, consegui sair de União da Vitória, para cumprir compromissos em Osasco, minha nova diocese. Inclusive lá celebrei o dia de Corpus Christi com procissão, tapetes coloridos e muita participação e fé. Em União da Vitória, no centro, não houve procissão, com duas matrizes paroquiais e diversas capelas invadidas pelas águas. Também a Festa do Padroeiro, o Sagrado Coração de Jesus foi suspensa na Catedral. Mas não cessou a oração. Especialmente nesse dia de Corpus Christi, na primeira leitura da missa, Moisés explicava ao povo que os sofrimentos passados foram permitidos por Deus, para pôr o povo à prova: “para saber o que tinhas no teu coração, e se observarias ou não os seus mandamentos” (Dt 8,2). Será assim que Deus permite o sofrimento em nossa vida para testar nossa fé? Não conhece Ele os nossos pensamentos mais do que nós mesmos? Por que precisaria de um expediente tão cruel? Podemos entender as dificuldades da vida, sobretudo essas que sofremos sem culpa alguma, como provações de Deus? Como pode a fé nos ajudar a reconstruir a vida, recobrar o ânimo, encontrar novo sentido de viver, depois de ter sofrido grandes perdas?

A dor revela o que temos no coração

Deus não precisa de nenhum desses expedientes para conhecer o nosso interior, e não o faz, pois é Pai de bondade, misericordioso ao extremo, e cuida de nós até nos menores detalhes, pois sabe até quantos fios de cabelo temos. Ele não precisa disso. Mas nós precisamos. E nada melhor que as ocasiões de provação para que nós mesmos nos convençamos de coisas que são importantes. Por exemplo: a enchente vai levar os nossos pertences. Precisamos carregar tudo. Podemos nos perguntar: por que guardamos tantas coisas? São mesmo necessárias? Quando nos sentimos impotentes diante das forças da natureza, como reagimos? Ficamos revoltados contra Deus? Ou ficamos deprimidos, desanimados, empacados, imobilizados, sem reação? Quando vemos aqueles que perderam tudo, como nos comportamos: somos prontos em socorrer? Mostramos generosidade ou egoísmo? Salvamos a nossa própria pele e deixamos perecer os demais como se nada fosse conosco?

O sofrimento nos amadurece

O sofrimento faz parte da condição humana e nem mesmo o Filho de Deus dele escapou. Podia ter evitado. Mas enfrentou-o como todos nós, e se tornou, diante dos nossos olhos, a imagem mais perfeita, o testemunho mais completo, o exemplo que ilumina a noite da nossa inconsciência, o lenitivo das nossas dores. Ele não deixou de pedir ao Pai que afastasse dele o cálice amargo da dor, mas enfrentou com coragem, sem revolta, oferecendo-se inteiro à humanidade, até o último suspiro. Olhar para a cruz nos fortalece; entender as nossas cruzes como parte da dele, nos enobrece; ser solidário para com o que sofre, como ele o foi, nos faz mais humanos e nos santifica. Contemplar o crucificado, vendo nele a vitória da ressurreição, nos faz buscar o sentido último de todas as nossas dores do tempo presente: vivemos para a eternidade. Só existe este caminho para enfrentarmos juntos esse tempo que teremos agora para retornar aos lares destruídos, reconstruir com ânimo, dar as mãos a quem sofre, fazer da necessidade o palco do amor.

Exemplos de generosidade

Esses dias de angústia e de perdas foram, também, ocasião de grandes gestos de colaboração e amor ao próximo. Pessoas acolheram famílias em casa, guardaram pertences, ajudaram a carregar peso, pegaram no rodo, na vassoura, em mutirão. Nos abrigos e salões paroquiais, os donativos foram chegando. Vieram das cidades vizinhas, de longe e de perto, muitos sinais de bondade. A catedral de Osasco se comoveu, assim como outras paróquias daquela diocese estão se mobilizando. São gestos bonitos. Revelam, como dizia Moisés, o que passa no coração das pessoas, e todos somos muito gratos por isso. Dioceses do Paraná, mesmo aquelas que tiveram também calamidades, enviaram donativos e fizeram depósitos. Sabem que além de pessoas carentes vai ser necessário reparar danos em igrejas, salas de catequese, seminário, salões paroquiais. E a nossa região foi das mais atingidas.

As águas começaram a baixar, mas uma ação continuada precisa ser feita. E é justamente agora, que os meios de comunicação não divulgam mais, que os políticos não mais comparecem, que os donativos vão ficando mais escassos, que o acompanhamento permanente deve ser realizado. É hora de todas as nossas igrejas olharem ao redor, somarem os esforços, e toda a sociedade promover um debate entre especialistas e população, em vista de políticas preventivas. Culpar a Deus, não. Pedir humildemente a sua ajuda, sim, claro. Dar as mãos em solidariedade, isso abre espaço para que a ajuda de Deus chegue até nós com abundância.

Eu, em breve estarei assumindo a nova missão que o Papa Francisco me deu. Deixo aqui no Estrela Matutina, na primeira página, o meu convite e o mapa, para que possam ir e participar da celebração de acolhida, ou lembrar em suas orações. Eu também estarei lembrando e rezando por todos, para que não só desta vez, mas cada vez mais encontrem em Cristo a vitória. Fiquem todos com Deus!

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