Bispos publicam novo documento e pedem a conversão pastoral das Paróquias

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Os Bispos do Brasil, reunidos em Aparecida, no início de maio tinham, como tema principal, o estudo e aprovação de um novo documento sobre a renovação paroquial. A publicação repetirá o título do Documento de Estudo nº 104, publicado no ano passado, “Comunidade de Comunidades: Uma nova Paróquia”, acrescido do subtítulo: “A Conversão Pastoral da Paróquia”. O objetivo é oferecer aos párocos, aos conselhos paroquiais, aos movimentos leigos, a todos os agentes de pastoral, uma proposta amadurecida e ampla para repensar a vida paroquial, neste novo ambiente cultural em que vivemos, nas cidades e nas áreas rurais. O mundo vive grandes transformações. Pode a Paróquia permanecer como sempre foi? A paróquia com sua matriz e capelas, a secretaria paroquial, os horários, o atendimento, a liturgia, a catequese, os ministérios, estão, ou não, de acordo com a vida cada vez mais agitada das pessoas? A Igreja atrai os jovens, ou os afasta? Está próxima das famílias que hoje enfrentam grandes turbulências e dificuldades de convivência? E aqueles que estão afastados, os que buscam outras religiões, os necessitados, os socialmente excluídos, são procurados pela paróquia, ou ficam abandonados? As pastorais, os responsáveis pelos serviços paroquiais, estão abertos a acolher novos membros e novas lideranças, ou são sempre os mesmos e definham pouco a pouco? O padre tem tempo, é acessível, acompanha os fiéis, ou vive apressado, estressado e sem ajuda? Os recursos do dizimo, das ofertas e promoções são aplicados em novas frentes de evangelização e na caridade, ou servem só para a manutenção da estrutura existente? Estas são algumas perguntas que podem orientar o nosso olhar ao considerar a necessidade de renovação da vida paroquial.

Um amplo estudo em todo o Brasil

Estive acompanhando, desde 2012 o estudo feito pela CNBB sobre o assunto. A expressão “comunidade de comunidades” que vem desde a Conferência de Santo Domingo (1992), retornou fortemente no documento de Aparecida (2007) e entrou nas Diretrizes da CNBB como uma urgência da evangelização nos dias de hoje. Os bispos do Brasil entenderam essa expressão, “uma Igreja formada por muitas pequenas comunidades” como chave para transformar a velha estrutura paroquial, de tantos séculos. Apesar de sua longa história, a Paróquia ainda é a forma de presença mais evidente e abrangente da Igreja. De fato, seja nos movimentados centros urbanos, apinhados de gente, seja nas áreas imensas e menos povoadas onde o padre chega só raramente para celebrar os sacramentos, em todos os recantos do país, há uma paróquia que tem a responsabilidade de fazer chegar a boa nova a toda a gente. Por isso, a Conferência de Aparecida reconheceu a importância das paróquias, mas insistiu na necessidade de renová-las. A CNBB, então, acolheu esse pedido. E empreendeu um longo caminho de pesquisa e debate que resultou no texto aprovado no ano passado, o documento 104. O documento deste ano tem o mesmo título mas é, de fato, novo. Foi acrescido de muitas propostas. É mais preciso em seus conceitos. Sobretudo, tem a contribuição excepcional do Papa Francisco, que em poucos meses redesenhou a imagem pública da Igreja, deu um novo tom à evangelização, mexeu nas raízes, renovou a linguagem e os comportamentos. Temos agora a visão de uma nova paróquia, para uma nova Igreja.

Paróquia inteiramente missionária

Não pretendo resumir um documento todo numa página, antes, espero que os párocos, os conselhos, os movimentos, venham a conhecer toda a riqueza dessa proposta de renovação paroquial, estudando o próprio texto. E só acredito que a nova paróquia acontecerá, se todos estiverem motivados e conscientes, a começar pelo novo bispo de União da Vitória, que já está no coração de Deus, e com o qual já devemos estar em sintonia e comunhão. É necessário que os párocos tenham claro o que pede a Igreja e que, em sintonia com o presbitério, queiram realmente dar passos decididos. E é claro que uma nova paróquia não acontece sem os leigos, que são a maioria do povo de Deus, e que carregam o fardo mais pesado de uma mudança, de uma transformação. Também eles devem ser motivados e formados, comprometidos e unidos, pois é o corpo da Igreja, no seu todo, que se põe em movimento. No caso da paróquia, o movimento que se pede é descrito como “conversão pastoral”. E o que isto quer dizer? Vejamos palavra por palavra:

Conversão: é mudar de direção, é tomada de consciência, é arrependimento e atitude, é olhar para Jesus Cristo, acolher o seu dom. Neste caso, trata-se de uma conversão pessoal e também comunitária. Nasce dessa conversão uma comunidade de discípulos. Infelizmente, é forçoso reconhecer, alerta o documento, que “há muitos batizados, e até agentes de pastoral que não fizeram um encontro pessoal com Jesus Cristo, capaz de mudar sua vida”. Outros “até trabalham na pastoral mas perderam o sentido do discipulado, esqueceram a força missionária que o seguimento de Jesus implica” (n.52)

Pastoral, o que é?: o Papa Francisco explicou o que significa essa palavra, quando estava aqui no Brasil: “Pastoral nada mais é do que o exercício da maternidade da Igreja”. A mãe “gera, amamenta, faz crescer, corrige, alimenta, conduz pela mão…”, dizia Francisco. Pastoral é então “redescobrir as entranhas da misericórdia, é inserir-se em um mundo de feridos, que têm necessidade de compreensão, de perdão, de amor”. (JMJ – jul. 2013)

Então, a “conversão pastoral”, assim fica claro, é tornar a Paróquia completamente, e decididamente, missionária, empregando todos os seus membros, e todos os esforços e recursos, não para cultivar a si própria, nem para o regalo dos privilegiados que já participam, mas para sair em missão, ir oferecer a todos, especialmente aos mais distantes, a alegria do perdão, o alimento da fé, a partilha do amor.

A alegria e a dor da conversão

Assim entendida, a conversão pastoral da Paróquia parece ser um passo que ainda não fizemos. Reconheço que, ultimamente, fizemos grandes progressos na consciência missionária. Temos uma legião de missionários diocesanos bem formados e ativos. Mas as paróquias, muitas delas nem conseguiram formar uma pequena equipe missionária paroquial, quanto mais transformar-se em paróquia missionária no seu todo. Aquelas que o fizeram, por certo já começam a colher os frutos da alegria, que vem da conversão. Todo começo é dolorido, sofrido, experimenta retrocessos. Mas é preciso ir em frente, sair, ser “Igreja-em-saída”, diz o Papa. As grandes transformações, da Igreja, aconteceram em horas difíceis que pareciam sem saída. E estamos num tempo assim, em que a vida comunitária arrefece, as famílias passam por muitas crises, as mudanças culturais nos confundem, a juventude se faz arredia, o tecido social se rompe com violências e medos, os valores se corrompem, o rebanho da Igreja se dispersa, e a gente pensa mais em “segurar o que sempre foi assim”, e não em inovar. É bom, nesta hora, ouvir o convite do Santo Padre, na Evangelii Gaudium, dizendo: “Convido a todos a serem ousados e criativos nesta tarefa de repensar os objetivos, as estruturas, o estilo e os métodos evangelizadores… A todos exorto a aplicarem, com generosidade e coragem, as orientações deste documento, sem impedimentos nem receios. Importante não é caminhar sozinho, mas ter sempre em conta os irmãos e, de modo especial a guia dos bispos, num discernimento pastoral sábio e realista.”(EG, 33).

É difícil mudar?

Um amigo meu me dizia, brincando, que “mudança, é coisa pra caminhão!” E, de fato, toda mudança é difícil. A conversão pessoal já exige um grande esforço. Mais difícil ainda é mudar uma comunidade toda, pois sempre há um bom grupo que, com muita santidade, prefere manter, conservar as coisas como sempre foram. Talvez, por isso, temos falado muito na renovação paroquial, na missão permanente, comunidade de comunidades, mas as mudanças resistem, ou caminham lentamente. Fazemos ações missionárias pontuais, episódicas, mas a conversão pastoral da Paróquia quer mais: supõe uma paróquia inteira voltada para a missão. Claro que nenhuma transformação acontece de imediato. Ela é progressiva. A CNBB propõe que essa transformação seja feita em três etapas: primeiro aqueles que estão mais engajados, as lideranças, os conselhos, os que já estão comprometidos com a vida paroquial. Eles devem conhecer a proposta do presente documento, devem ser motivados pelos párocos, pelos formadores das comunidades. Devem experimentar um encontro vivo com Cristo e sua Palavra. Sem isso, ninguém evangeliza. A segunda etapa é atingir aqueles que já vêm na Igreja, mas sem nenhuma atividade comunitária, só participam da missa. Depois de formados para a missão, estes vão cumprir a terceira etapa: ir a todos os recantos da paróquia, rua por rua, casa por casa. Irão aos grupos profissionais, às escolas, associações e grupos de famílias, aos meios de comunicação, aos bairros novos, onde ainda falta a presença da Igreja. Só então teremos comunidades vivas e cheias de coragem apostólica, em estado permanente de missão. E vão fazer o que? Anunciar Jesus. Parece incrível mas mesmo em nosso ambiente predominantemente católico, há muitos que não o conhecem, nem o mínimo.

Por que acreditar, agora, que essa transformação missionária virá, se antes tentamos? Penso que o impulso dado pelo Papa Francisco é uma das razões. A outra razão vem da necessidade: o tempo de mudanças que estamos vivendo, em que nada permanece como era antes. Ou damos um salto de qualidade, ou definhamos. Não quero crer nessa segunda hipótese.

A hora, portanto, é agora. O novo documento “Comunidade de Comunidades: uma Nova Paróquia” é entregue a todas às paróquias como um guia, para darmos juntos esses passos decisivos. Há ali propostas muito práticas que precisam ser conhecidas, assimiladas e praticadas. Eu já estarei, a partir do dia 20 de julho, em Osasco, SP, acompanhando aquela grande diocese nesse mesmo esforço de discernimento e compromisso com o futuro. E peço a Deus, com mais força ainda, para que o novo pastor que virá, tenha muito empenho, e conte com o apoio generoso de todos, para guiar este rebanho segundo o coração de Cristo. Deus abençoe a todos.

Dom João Bosco Barbosa de Sousa, ofm
Administrador Diocesano de União da Vitória
dbosco@dbosco.org

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