Eis-me aqui, envia-me! (Is 6,8)

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imagem-bNOVA MISSÃO

Eu não podia imaginar que passaria esta Semana Santa assim. Havia programado para viver a Paixão e Ressurreição de Cristo em Santo Antonio do Iratim, no município de Bituruna, com o jovem Pe. Mauro Sérgio, que estaria iniciando o seu ministério de pároco naqueles dias. Na quarta feira, antes do Tríduo Sacro, foi dada a notícia: devo assumir o pastoreio de uma grande diocese, na região metropolitana de São Paulo, com dez vezes mais habitantes que a nossa pequena União da Vitória. Ao pedido do Papa Francisco, através da Nunciatura Apostólica, veio-me à mente a prontidão do Profeta Isaías, depois de ter os lábios tocados por uma brasa viva: “Eis-me aqui!, diz o profeta. Envia-me”!

Não me sinto tão pronto como Isaías. Mas consola-me o número grande de manifestações, algumas pesarosas, outras entusiasmadas, com promessa de orações. Alegra-me sobretudo uma bela manifestação de afeto do Bispo de Osasco, Dom Ercílio, e de muitos sacerdotes e leigos, alegres e esperançosos, pela notícia da vinda do novo bispo para aquela diocese.

Pertencemos ao Senhor

Este acontecimento, que envolve, de certo modo, nossas mais de quatrocentas comunidades, paróquias e capelas, e também as comunidades que me vão acolher em Osasco, me leva a refletir com você, leitor de todos os meses, sobre o modo como exercemos na Igreja essa importante tarefa de pastores, que vêm e que vão. Penso no transtorno que ocorre quando um padre muda de paróquia. É uma tarefa das mais difíceis, para nós bispos, essa de encontrar o pároco adequado para cada paróquia, transferindo este daqui para lá, outro de lá para cá. Há aqueles que estão muito bem, mas são necessários em outro lugar, e também aqueles que precisam mudar, assumir outras funções, estudar, renovar-se. Há os que estão sempre prontos e se desprendem com facilidade. Mas, há casos, até, de listas de abaixo-assinado para tentar segurá-los, quando são queridos.  Mas não há dúvida de que as transferências são benéficas, tanto para o pastor, que se renova, quanto para a comunidade que tem oportunidade de empreender novos caminhos. Transferir é uma tarefa que só se faz com muita oração e apoio de um Conselho que pensa em conjunto as necessidades da diocese. O mesmo se pode dizer com relação ao bispo, pastor da Diocese. Há alegrias e lágrimas, que bom! Mas não pode haver apego ou dúvida: quem pastoreia é o Senhor, nós o servimos. Quem afirmou isso foi o Papa Francisco, numa catequese sobre o Sacramento da Ordem. Dizia o Papa: “O bispo, o sacerdote, o diácono, são postos à cabeça da comunidade como servidores, como fez Jesus… E o Sacramento da Ordem os ajuda a amar apaixonadamente a Igreja, dedicando todo o seu ser à comunidade…” Nessa hora, o Papa Francisco levantou os olhos do papel, como é seu costume, e disse de improviso: “Mas não haverão de considerar a comunidade como sua propriedade: o bispo não é proprietário da diocese, nem o sacerdote é proprietário da paróquia. A propriedade é do Senhor, a quem ele deve servir!”. Sim, caro leitor, é bela essa nossa missão de pastores, mas não proprietários. E como devemos agradecer a lição que nos deu o Papa Bento XVI que, por si próprio, ofereceu ao mundo um testemunho de desprendimento e humildade, ao renunciar ao pontificado, e abrir caminho para o Senhor escolhesse um sucessor para o governo da Igreja, recolhendo-se no silêncio.

Vou com alegria

Estive olhando a minha coleção do Estrela Matutina desses anos: Foram quase oitenta mensagens que assinei, na primeira e segunda página de cada mês, o que daria um livro. Como eu comecei logo após a Conferência de Aparecida, em 2007, essas páginas me serviram para refletir com a comunidade diocesana sobre essa nova face da Igreja latino-americana que veio nascendo e se desenhando nestes anos. Ideias que foram inspiradoras das nossas assembleias diocesanas anuais na Casa de Formação, nas reuniões dos Conselhos Paroquiais, e na formação permanente do clero e dos leigos. Observei a terceira página de cada edição do Estrela,  onde quase sempre está a crônica da Diocese, os grandes eventos, as celebrações, as ordenações, as visitas pastorais. No Estrela estão as páginas de Dom Walter, sempre sábias, e outros artigos de espiritualidade e formação.  Passei os olhos pelas fotos das páginas coloridas, que me recordarão sempre os encontros, os movimentos, o Seminário, as religiosas, as jornadas missionárias. Quantos bons momentos! Numa rápida entrevista ao Estrela Matutina, publicada no site da Diocese, ao sair a nomeação, eu disse não haver melhor momento, que a Semana Santa, “para morrer e renascer, renovar e caminhar com fé e alegria”. E ao povo de Osasco, na mesma publicação, eu afirmei: “quero bater à porta com humildade, pedir guarida, com alegria, sempre disposto a servir”. Ainda não conheço nada da nova missão, mas já recebi, de lá, muitas mensagens de acolhida, e só posso estar confiante. Deus nos ajude a realizar o melhor de nós mesmos.

 E a diocese de União da Vitória

O que acontece quando o bispo é transferido? A diocese de União da Vitória não teve ainda esta experiência, pois o primeiro bispo, Dom Walter, permaneceu no posto até tornar-se emérito, e aguardou a chegada do novo bispo para passar-lhe o báculo. Assim, podem aparecer muitas dúvidas: Com a transferência, a diocese pela primeira vez fica “vacante”. Como é isso? Não pode a Igreja diocesana ficar sem um pastor. Então o Santo Padre, nesse período, entre a nomeação e a posse na outra diocese, nomeia um “administrador diocesano”. Dom João Bosco permanece como administrador da Diocese, assim como Dom Ercílio, lá em Osasco, permanece na mesma função de administrador. Quando houver a posse na nova diocese, os padres que fazem parte do Colégio de Consultores, em União da Vitória, deverão escolher um padre como administrador diocesano, que estará coordenando todas as atividades, até a chegada de um novo bispo. Este ainda não está escolhido, e isso deverá demorar alguns meses. Nesse tempo, o povo da Diocese será convidado a rezar, pedindo a Deus um bom pastor, para a Diocese de União da Vitória.

E os trabalhos pastorais, como ficarão? Penso que terão boa continuidade, pois temos claras indicações da Assembleia Diocesana para iluminar o caminho. As paróquias deverão por em prática os seus Planos Paroquiais de Ação Evangelizadora, levando em conta os cinco aspectos do tema “Comunidade de Comunidades” que foram apontados em fevereiro. As missões diocesanas são um caminho já consolidado e que pode se ampliar através do trabalho missionário interno nas paróquias. Eu gostaria de acompanhar de perto todo esse desenvolvimento, mas estarei só rezando de longe e guardando as lições que aqui aprendi.

Amor não se desliga

Tenham a certeza de que estarei sempre à disposição caso seja necessário. Como também o pessoal de Osasco terá que ouvir muito sobre União da Vitória, e acolherão, por certo, os que me forem visitar. E vou contar sempre com as orações de todos. Como em outros lugares por onde passei, aqui também terei, para sempre, muitos amigos, e muitas razões para retornar. Era assim que se expressava um casal que muito me ajudou em tempos passados: “Amor não tem botão de desligar, e não é a distância física que impede o coração de amar”. Acho que eles têm razão, e isso eu posso conferir na prática, tendo passado por tantos lugares. Só me resta então agradecer, e pedir que me perdoem por alguma ação desastrada, ou omissão séria. Quero bem a todos. Como eu me expressei no dia da nomeação, em entrevista ao Estrela: Tenho muita pena de deixar União da Vitória, deixar Dom Walter, que há sete anos me entregou uma diocese bem estruturada e organizada, as funcionárias da Cúria, os padres e diáconos, todos muito amigos, as religiosas, o povo das paróquias e capelas que sempre me acolheu com muita alegria.  Peço aos diocesanos de União da Vitória é que sejam firmes e corajosos, acolhendo, comigo, a vontade do Senhor.

Dom João Bosco Barbosa de Sousa, ofm
Administrador Diocesano de  União da Vitória
dbosco@dbosco.org

Um comentário

  1. A Sociedade de São Vicente de Paulo, cuja sede do Conselho Central Oeste de São Paulo situa-se em Osasco o saúda. Seja bem vindo e tenha certeza de que nossas orações estão voltadas para seu ministério à frente de nossa Diocese. Paz e Bem! Em Ozanam e São Vicente de Paulo.

    Ana

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