José de Anchieta: O Santo Missionário do Brasil

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O Papa Francisco tem mostrado a todo mundo, por gestos e palavras, que o caminho da Igreja, hoje, necessariamente, passa por uma grande mobilização missionária. Jesuíta de formação, franciscano por escolha, e latino-americano de origem, o Papa Francisco aponta esse caminho como seu programa, expresso assim na Exortação Evangelii Gaudium (n.25): “Espero que todas as comunidades se esforcem… no caminho de uma conversão pastoral e missionária… Constituamo-nos em estado permanente de missão, em todas as regiões da Terra”.

Esta “explosão missionária” que pede o Papa, e ele conhece essa história muito bem, aconteceu nos tempos de seu fundador, Santo Inácio de Loyola, quando missionários, não só jesuítas, mas também franciscanos, dominicanos, e outros homens de fé, saíam da Europa, para a Ásia, África e para a nossa América, carregados de ardor e de fé, que os fazia enfrentar os perigos das viagens inseguras, doenças mortais, animais selvagens, violências e morte, com um só objetivo, o de evangelizar esse vasto mundo que se abria com as grandes navegações e perspectivas de novo mundo, nos anos 1500 e seguintes. Nesse contexto, é bem compreensível que o Santo Padre tenha decidido, com muita presteza, acolher a canonização de mais um brasileiro, o Padre José de Anchieta, apontando-o como modelo santo para os missionários de hoje.

Nascido nas Ilhas Canárias, antigo domínio espanhol, com apenas 17 anos, José de Anchieta entrou para Companhia de Jesus, e aos 19 anos já estava aqui no Brasil como missionário. Dedicou sua vida inteira à evangelização dos índios, negros e europeus aqui chegados, nos primeiros anos após o descobrimento. Andou a pé por vários Estados, desde a Bahia até o sul do Brasil. Morreu aos 63 anos, numa pequena cidade do Espírito Santo, que hoje leva o seu nome.

Para imaginar a coragem desse jovem, podemos comparar com os de hoje, que estão aí pelos 17 a 19 anos. Sabe-se que muitos jovens não vieram na Jornada Mundial da Juventude por causa das manifestações populares e por causa da imagem do Rio de Janeiro, ligada aos assaltos de turistas e a criminalidade. Isso nem se compara com os perigos daquele tempo: naufrágios frequentes, febres inexplicáveis e doenças tropicais, cobras e onças, além da violência entre os homens, indígenas guerreiros, europeus sedentos de ouro e riquezas, negros escravizados e revoltosos. Quanto heroísmo era necessário para evangelizar num mundo assim.

José de Anchieta foi um missionário completo. Catequista, primeiro aprendeu a língua dos índios, para depois ensinar a doutrina. Estava presente entre os fundadores de São Paulo, cidade que cresceu ao redor do Colégio dos Jesuítas, onde Anchieta ensinou. Gramático, descreveu com detalhes a língua indígena, poeta e escritor. Tornou-se padre aos 32 anos. Suas cartas e relatórios sobre a missão são documentos preciosos dessa época. Viveu num período de grandes contradições, em que a Igreja atuava de mãos dadas com o Império Espanhol e Português e, por isso, fechava os olhos para os horrores do tráfico de escravos, a rapinagem do ouro, pedras preciosas, madeira, e outras riquezas. Anchieta catequizou e batizou com a cartilha do Evangelho, e não com a dos exploradores. Defendeu a dignidade de índios e negros escravizados, quando muitos ainda duvidavam se eles tinham alma. Nas areias da praia compôs um hino à Virgem, escreveu um manual de catequese, dedicou-se de corpo e alma a essa missão, e pode ser considerado como Patrono dos Catequistas.

João Paulo II o beatificou em 22 de junho de 1980. O Estrela Matutina presta esta homenagem ao novo Santo, canonizado pelo Papa Francisco, aos 2 de abril de 2014. Ainda em abril, teremos mais dois santos queridos sendo canonizados: João XXIII e João Paulo II. Que sejam, com São José de Anchieta, o Apóstolo do Brasil, sinais e motivos para uma nova explosão missionária nos tempos de hoje.

Dom João Bosco, ofm
Bispo de União da Vitória, PR
dbosco@dbosco.org

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