Uma Igreja “em saída”

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Evangelii Gaudium

Neste mês e março, o papa Francisco completa um ano, à frente da Igreja. É impressionante que, em tão pouco tempo, o sopro do Espírito Santo, através dele, tenha arejado e varrido a Igreja e face da terra, de forma tão vigorosa. Suas palavras jorram, a cada dia, nas homilias, nas audiências, nas catequeses. O seu jeito simples de falar toca o coração das pessoas, e torna fácil de entender mesmo os temas mais profundos e complicadas razões teológicas. Uma pessoa leiga comentou comigo, ao ler a Exortação Evangelii Gaudium: “Parece que ele está falando com a gente…” De fato, é essa a impressão que temos ao ler seus escritos. Mas aqui vem a dificuldade: estamos encantados, sim, com os seus ensinamentos e com modo surpreendente com que, mesmo fora da Igreja, ele é respeitado e ouvido. Porém, conseguiremos a partir dessa inspiração, mudar nossas práticas habituais, sair do imobilismo, abraçar mais forte o Evangelho e ser essa nova Igreja? Notem que o Papa usa expressões fortes como estas: “É necessária uma conversão pastoral que não pode deixar as coisas como estão” (EV 25). Ou, então, “devemos abandonar o cômodo critério pastoral do “sempre foi feito assim!” (EV 33). Afinal, o que, exatamente, quer o Papa mudar na Igreja?

O Papa do Vaticano II

A novidade do Papa Francisco não é tão nova assim. Para aqueles que pensam que o papa não está apenas conduzindo a Igreja, mas sim “atropelando” quem está no caminho secular da sólida tradição, é preciso lembrar que todas essas novidades que chocam os fiéis e os infiéis, já estavam nos documentos saídos do Concílio Vaticano II, há exatos 50 anos. Nesta passagem do primeiro aniversário de pontificado do Papa Francisco, há teólogos que se deram ao trabalho de olhar para os textos do Concílio e verificar que, lá nos anos 60, o Espírito Santo soprava nesse mesmo rumo a barca da Igreja. Ela fez uma grande volta, necessária para que fossem criadas as pré-condições, no turbulento período do Papa Paulo VI, que “apertou os cintos” da Igreja. Depois veio o longo período do santo Papa João Paulo II, que solidificou as bases da nova Igreja conciliar, período em que já estava presente o Papa Bento XVI, ainda como cardeal, mas firme e claro na doutrina; e depois, como Papa, a dar os contornos mais sólidos da teologia do Vaticano II, até chegar ao “furacão Francisco”, portador dessas novidades todas. É, ou não, um caminho preparado e inspirado por aquele mesmo Mestre, Jesus Cristo, que chamou a Pedro e lhe disse: “Eu rezei por ti, para que a tua fé não desfaleça, e quando te converteres, confirma os teus irmãos!”(Lc 22,32 )? O Papa Francisco, que se afirma um pecador, que se propõe a si mesmo, em primeiro lugar, a conversão, é ele quem nos inspira à coragem de seguir seus ensinamentos “sem impedimentos nem receios”. Que caminhos ele nos inspira?

Juntos, não sozinhos

Ao mesmo tempo em que o Papa nos convida a ser “ousados e criativos na tarefa de repensar os objetivos, as estruturas, o estilo e os métodos” na evangelização, ele insiste que essa tarefa deve ser assumida em conjunto. “Importante – diz Francisco – é não caminhar sozinho, mas ter sempre em conta os irmãos”(EV,33).

Vejam a importância a nossa assembleia diocesana, a cada ano, onde estamos juntos, pastores e fiéis, onde nos sentamos em grupos para examinar, propor, corrigir, apontar e assumir tarefas. Esta mesma advertência vale para que valorizemos os Conselhos, em nível diocesano e paroquial e também os conselhos comunitários das Capelas, e as coordenações dos Movimentos e das ações pastorais. O próprio Papa dá exemplo quando ele usa o simples título de “Bispo de Roma” (é uma expressão que põe em relevo a colegialidade dos bispos), na escolha de oito cardeais para ajudá-lo no governo da Igreja, e em toda a reforma da Cúria Romana. O mesmo pedido ele faz aos bispos, dizendo que eles, por vezes devem estar à frente do rebanho para indicar o caminho, por vezes no meio do rebanho, convivendo e participando, e por vezes “atrás” – essa é a novidade – atrás do rebanho, não só para ajudar os que caminham mais devagar, mas, sobretudo porque “o próprio rebanho possui o olfato para encontrar novas estradas”. (EV 31). O mesmo deve valer para os párocos, com seus Conselhos, e também vale para quem coordena uma equipe litúrgica, um grupo de catequistas, uma ação pastoral, ou até a equipe de cozinha da festa do Padroeiro. Todos são irmãos, desprendidos de si, todos “em saída” missionária.

Irás para onde eu te enviar! (Jr 1,7)

Voltamos à expressão do Papa que vimos no início. O que é mesmo uma Igreja em saída? Uma paróquia em saída, um movimento em saída, um cristão em saída, o que isso quer dizer? O Papa Francisco explica a expressão com alguns exemplos da Bíblia: começando com Abraão, que partiu para uma nova terra. Depois Moisés, indo com o povo hebreu para a terra prometida; e ainda o profeta Jeremias, e tantos outros. Mais anda, o próprio Jesus vai dizer aos apóstolos: “Ide!”. É esta “saída” missionária que o Papa quer ver atualizada. “Todos somos convidados a aceitar esta chamada: sair da própria comodidade e ter a coragem de alcançar todas as periferias que precisam da luz do Evangelho”. (EV 20).

Quando ouvimos essa palavra “periferia”, pensamos em primeiro lugar na localização geográfica: onde é a periferia da paróquia? São os lugares mais distantes do centro, mais distantes da matriz ou das capelas. É o lugar que pouca gente visita, onde estão aqueles que não são lembrados. Mas a periferia também é existencial, diz o Papa. E esta pode estar bem do lado da matriz. Periferia existencial é quem está doente, quem está sem emprego, quem está em conflito na família, que está afastado de Deus. Que consequências haveria se se pensasse o planejamento pastoral “a partir da periferia”, como pede o Papa?  O que significa para um Movimento, seja de casais, seja de jovens, seja um grupo de oração ou de reflexão, o que significa para esse grupo “planejar suas ações a partir da periferia”?

Planejar, para quê?

Avaliamos na assembleia de fevereiro a quarta urgência do Plano Diocesano, que equivale, nas Diretrizes Gerais (DGAE), à configuração da Igreja como “comunidade de comunidades”. Poucas paróquias têm a prática de elaborar um Plano Paroquial a partir do que é estabelecido no Plano diocesano. Também as pastorais, os movimentos, poucos são os que claramente planejam. E até se perguntam: pra quê? Por que razão perder tempo com planos, melhor é ir espontaneamente, deixar agir o Espírito Santo, que sopra onde quer… Além disso, muitos planos dão trabalho para escrever e, depois, ficam só no papel.” Não é verdade? Esse é um argumento muito válido para quem não quer sair do lugar. Para quem acha que está bom assim. Para quem quer resolver sozinho sem interferência de pensamentos divergentes. Mas seguramente não é o quer o Papa Francisco com seu sorriso manso, queixo esticado à frente, e forte determinação de tirar os cristãos da “faixa de conforto”. Seu desafio de que caminhemos juntos, obriga a planejar em todos os níveis.

Quem sabe, pensando numa pastoral a partir da periferia, possamos nos debruçar sobre alguns pontos, que podem ser estes:

  1. Que rosto tem a periferia de nossa paróquia? Que significa então, a partir desse olhar, ser uma Igreja ”em saída”?
  2. Como tratamos os recursos da Comunidade, o dizimo, o benefício das festas e promoções, as campanhas: são dirigidas para a Evangelização daqueles que estão distantes? Ou os empregamos para manter a nós mesmos como “um grupo de eleitos que olham para si mesmos”?
  3. A vida comunitária, a liturgia, a formação cristã, usa uma linguagem que só nós mesmos gostamos e compreendemos, ou é atraente para os que chegam a procura de Jesus Cristo, da luz do Evangelho, do calor da comunidade?
  4. Os mais pobres se sentem bem em nossos encontros e celebrações? Entendemos que eles são os amados de Cristo e vamos ao seu encontro?
  5. Os jovens são também hoje uma periferia existencial. Que espaço ocupam nas nossas comunidade e que recursos estamos dispostos a investir nesse canteiro do futuro?

O Papa fala insistentemente em mudanças e pode haver entre nós quem ainda se pergunte por que mudar? Ele responde que “toda a renovação da Igreja consiste essencialmente numa maior fidelidade à própria vocação (…) Sem fidelidade à própria vocação, toda e qualquer nova estrutura se corrompe em pouco tempo” (EG 26). Vivemos esse tempo de graça e de sopro divino a empurrar nossa embarcação. Em vez de nos esquivar e deixar passar, é hora de abrir as velas. Entramos na Quaresma que é tempo de conversão. Quero desejar a todos um tempo quaresmal muito fecundo, que nos leve a uma feliz e santa Páscoa!

Dom João Bosco, ofm
Bispo de União da Vitória, PR
dbosco@dbosco.org

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