A alegre missão de levar ao mundo o Evangelho, com um empurrão do Papa Francisco

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No início de cada ano, isto já é tradição na diocese, acontece a Assembleia Diocesana. Neste mês de fevereiro, no dia 22, a Casa de Formação Cristã receberá os participantes da XIII Assembleia Diocesana: o bispo diocesano, o clero, leigos representantes dos Conselhos Paroquiais e dos Movimentos e Pastorais diocesanas. A tarefa principal: detalhar o quarto item do Plano Diocesano em vigor, aquele que trata da renovação das Paróquias, como Comunidade de Comunidades.

No ano passado, exatamente em maio de 2013, os Bispos do Brasil publicaram um documento de estudos, nº 104, propondo uma nova fisionomia para as paróquias, à luz do Documento de Aparecida. O documento foi lido e assimilado em todo o Brasil. Muitas emendas e sugestões chegaram à CNBB, a partir da experiência concreta das paróquias em todo o país. Todo esse material foi reunido em um novo texto que será levado aos Bispos em Aparecida, no mês de maio de 2014. Aí sim, teremos um fruto amadurecido, retratando o novo perfil do trabalho paroquial no Brasil.

Temos, em nosso país, em torno de 12 mil paróquias. Podemos imaginar a diversidade de situações: nos centros urbanos apinhados de gente ou na vastidão dos sertões; paróquias de centro, de periferia; de gente universitária ou da roça, de prédios modernos ou favelas, com muitos recursos ou sem nenhum. O que une todas essas paróquias é a missão: evangelizar, tornar Jesus Cristo presente e vivo na vida de pessoas que ele, Cristo, quer reunir, ensinar, alimentar e salvar. Essa missão foi detalhada no documento 104 da CNBB e será o foco da nossa Assembleia de 2014.

Chegou o Papa Francisco e mudou a conversa

O Papa Francisco costuma dizer que Deus é surpreendente, e seu amor não se cansa de renovar o mundo. Pois uma das demonstrações desse modo de ser de Deus é o próprio Papa atual. Contrariando as previsões dos analistas, atraindo os olhares de simpatia até de gente afastada da Igreja, deixando sem argumentos os mais ferozes críticos da Igreja, o Papa Francisco simplesmente ensina por gestos, por homilias breves e diretas, e vai quebrando resistências mesmo dentro da própria Igreja, quanto ao ensinamento de Cristo.

Também no que diz respeito à evangelização paroquial, tema de nossa Assembleia, a novidade trazida pelo Papa Francisco, neste primeiro ano de pontificado, pode ser comparado a uma “bochada”. Conhece, leitor, aquele jogo dos italianos, com bolas pesadas, o jogo de bochas? Quando alguém, com boa pontaria, atira a bocha com força, esparrama tudo, muda a configuração do jogo. Assim aconteceu com o Papa Francisco. Ele não mudou nenhuma norma, nenhuma lei, nenhum dogma. E nem vai mudar. Ele mudou o tom da conversa. E, mudou na direção do Evangelho.

Nova paróquia, segundo a Evangelii Gaudium

Evangelii Gaudium é o nome, em latim, da Exortação Apostólica publicada pelo Papa Francisco. O próprio título é sugestivo: fala de alegria. Como alegre se mostra sempre o Papa quando fala de Deus. Ele também é severo quando é necessário chamar a atenção sobre os graves desvios da humanidade e também quando fala dos pecados da Igreja. Mas o Evangelho é boa notícia, e a notícia de que Deus nos ama só pode ser fonte de uma imensa alegria.  No final de novembro do ano passado, ao encerrar-se o Ano da Fé, o Papa Francisco reuniu, num documento só, todo o seu modo de ver a missão do cristão de anunciar o Evangelho ao mundo de hoje.

E o que diz a Evangelii Gaudium sobre as paróquias? Quase nada, a rigor um só parágrafo (n.28) que começa dizendo que a Paróquia não é uma estrutura ultrapassada, caduca, mas de grande plasticidade. Deve ser renovada. Em que sentido? Poucas linhas antes, o papa Francisco desafia a cada um de nós a comparar a imagem da Igreja, da forma como Cristo a quis e amou, como sua Esposa santa e imaculada e, de outro lado, o rosto real da Igreja hoje. Desta comparação, diz Francisco, “surge uma necessidade generosa e quase impaciente de renovação, isto é, de emenda dos defeitos.” É como se fosse um exame interior, espelhando-se no modelo que é Cristo, diz o Papa.

O Papa Francisco mostra o seu coração com franqueza: “Eu sonho com uma opção missionária capaz de transformar tudo, para que os costumes, os estilos, os horários, a linguagem, e toda a estrutura eclesial se tornem um canal proporcionado mais à evangelização do mundo atual que à autopreservação da Igreja”. O Papa supõe que a Paróquia “esteja realmente em contato com as famílias e com a vida do povo, e não se torne uma estrutura complicada, separada das pessoas, nem um grupo de eleitos que olham para si mesmos”. E questiona: a Paróquia, por meio de todas as suas atividades, incentiva e forma os seus membros para serem agentes da evangelização? “É comunidade de comunidades, santuário onde os sedentos vão beber para continuarem a caminhar, e centro constante de envio missionário”? Sem ser pessimista, o Papa conclui o parágrafo 28 com esta constatação: “Temos, porém, de reconhecer que o apelo à revisão e renovação das paróquias ainda não deu suficientemente fruto, tornando-se ainda mais próxima das pessoas, sendo âmbitos de vivia comunhão e participação, e orientando-se completamente para a missão”.

A conversão pastoral da Paróquia

São poucas as palavras da Evangelii Gaudium dirigidas diretamente às Paróquias, mas quase todo o documento pode se referir a elas, pois falam da missão principal da Igreja, que é evangelizar, e “as paróquias são a própria Igreja que vive no meio das casas dos seus filhos e suas filhas”, como disse o Santo Papa João Paulo II. De forma clara e límpida, o espírito novo do Papa Francisco não só coincide com o caminho de renovação paroquial que vínhamos perseguindo, mas de forma espetacular o empurra com mais força. Se era hora de mudar, agora essa hora é mais imperiosa, já que o Papa diz simplesmente: “Eu espero que todas as comunidades se esforcem por colocar em atos os meios necessários para avançar no caminho de uma conversão pastoral e missionária, que não pode deixar as coisas como estão. Neste momento não nos serve uma “simples administração”. Coloquemo-nos em estado permanente de missão, em todas as regiões da Terra.” Notem os leitores: o Papa diz isso para todos as regiões da Terra. Imaginem se isso não for considerado importante nesta nossa terra, o Continente Latino Americano, que em primeira mão ouviu esse apelo, já na Conferência de Aparecida, anos atrás, onde estava o futuro Papa Francisco!

E esta conversão pastoral é o objetivo que buscaremos, juntos, na Assembleia diocesana. Os participantes da Assembleia já fizeram, desde o ano passado um primeiro balanço do perfil pastoral de cada paróquia da nossa diocese. Mas insisto em publicar este pedido do Papa na primeira página do Estrela Matutina, para que provoque inquietação ou a “impaciência” que fala o Papa, em vista de renovação constante. Deixo, como sempre, alguns questionamentos:

1. Temos que responder com coragem: a nossa Paróquia, em comparação com aquela Igreja que Cristo quis e amou, como sua Esposa santa e imaculada, precisa renovar-se? Toda mudança é difícil, demorada e sofrida. Mas quando é necessária, não há que se arranjar protelamentos. O que é preciso mudar?

2. Na questão da proximidade das famílias, podemos dizer que a Paróquia que eu frequento, de fato, se faz presente, através de visitas, de pequenos grupos de reflexão e vivência; tem horários suficientes e acessíveis de atendimento, de confissões, de atendimento na secretaria, ou é uma instância burocrática, fechada, só para os que já participam e sabem o caminho?

3. O que dizer para tanta gente que tem sede do Evangelho, que necessita de atenção, que enfrenta dificuldades em sua família, gente desorientada e sem rumo, que precisa conhecer mais a Palavra de Deus, enfermos, pobres, crianças e jovens que perdem o rumo, porque ninguém lhes mostra o bom caminho. O que dizer a eles? Somos, na nossa Paróquia todos missionários, ou formamos um grupo de eleitos que olham para si mesmos?

4. Será que nós, que vivemos na Igreja, não damos um péssimo testemunho quando pretendemos sustentar a comunidade com festas onde se vendem bebidas alcoólicas que causam desgraça em tantas vidas? Será a bebida, como também os sorteios e rifas, o modo mais adequado de promover a evangelização?

5. Os documentos da Igreja, assim diz o Papa Francisco, costumam ser logo esquecidos. No entanto, ele pede que sua Exortação Apostólica seja um programa de ação, e que tenha frutos concretos. O que devemos fazer para que todos conheçam, divulguem e pratiquem os ensinamentos do Papa e da Igreja?

Quem evangeliza não o faz por sua própria iniciativa, nem escolhe métodos e lugares que lhe parecem mais convenientes. É Jesus quem oferece, a todos a quem ele quer, sua amizade e proximidade. A nós cabe ser uma Igreja em atitude constante “de saída”, de abertura, de comunicação, de contato, para favorecer esse encontro. Por isso a urgência em responder aos desafios que hoje nos são apresentados. É a nossa alegria, a alegria do Evangelho, que também nos enriquece em Cristo.

Dom João Bosco, ofm
Bispo de União da Vitória, PR
dbosco@dbosco.org

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