Uma história de Natal

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FAMÍLIA DE FAMÍLIAS

Certa vez, nos tempos de pároco, fui convidado a participar do encerramento da Novena de Natal numa residência. Ao chegar, percebi que o grupo, além da oração e da partilha da Palavra, estava comemorando um aniversário, com a casa enfeitada com balões, decoração infantil e bolo. Sete anos do Vítor, um menino com síndrome de Down, que passava de um lado a outro, brincando com todos e recebendo o carinho de todos. “É nosso filho!” dizia a dona da casa. Nosso, de todos do grupo, ela explicou. Um dos casais presentes, aproveitou a ocasião para me contar a história que todos conheciam, menos eu.

Sinval e Luíza, com duas filhas, vieram morar na Vila quando ele ficou sem emprego. Tiveram que vender a casa boa e alugar uma mais simples, para abrigar a família. Ainda mal conhecidos, foram convidados a participar de um grupo bíblico que se reunia nas casas, cada quinzena.  Não eram muito de frequentar a Igreja mas, diante da insistência da vizinha, começaram a ir. E, na verdade, a vida deles passou por um terremoto quando souberam que seriam pais pela terceira vez, algo que não estava nos planos, justo quando ele estava sem emprego, tentando começar um novo negócio. O drama se completou quando o médico, depois de alguns exames, confirmou que havia grande chance de a criança ser portadora de alguma deficiência. “O chão desapareceu debaixo dos pés”, disse Luíza. Impossível não pensar que essa criança seria um peso, para as duas filhas, para a economia já abalada da família, para a vida profissional… “Ninguém sabia ainda da gravidez, só o casal e o médico”, conta Luíza. No fundo, ela jamais admitiu abortar, mas não seria melhor para todos? Ninguém, nem a família ficaria sabendo”. Choraram juntos, e fazia tempo que não rezavam mas, desta vez, rezaram longamente. Não tinham coragem de matar um filho…mas também não tinham forças para assumir. A vizinha interrompe o relato: “Bem nesses dias, fui à casa de Luíza pra lembrar que estava começando a quaresma, e o grupo ia se reunir. Notei as lágrimas da Luíza, mas não tive coragem de perguntar. Será que brigaram?, pensei.” Luíza deu uma desculpa qualquer para não ir, disse que ia viajar, que tinha que falar com Sinval, mas nem pôde concluir a fala, caindo no choro”. E contou para a vizinha o drama que estavam vivendo, e que não tiveram coragem de contar nem para os parentes. O grupo se uniu em torno do casal. Todos ajudaram na procura de emprego, rezavam juntos e os visitavam com frequência. O carinho de todos foi iluminando a vida do casal. Agora tinham certeza: o filho que esperavam era, sim, um presente de Deus, devia ser amado e acolhido, e seria para eles uma imensa fonte de amor. A novena de Natal daquele ano foi toda em preparação da chegada do Vítor, que nasceu exatamente no 25 de dezembro. E, a partir de então, todos os anos esse acontecimento é comemorado na pequena comunidade. Luiza e Sinval descobriram que o grupo era uma “família de famílias”. “Não imagino o que seria da minha vida sem o Vítor, e sem a minha comunidade”, disse Luíza.

Cada um com sua história

Outros participantes do grupo concordaram que a amizade de todos era muito boa. Agildo e Clélia disseram que estavam quase separados. Hoje estão bem, graças ao apoio que encontraram. Luizinho é divorciado, mas encontrou alguém com quem refez a vida e a alegria. A princípio deixou de ir na missa, pois, sentia o “olhar atravessado” das pessoas na Igreja. Hoje participa toda semana, frequenta a Escola Bíblica e se sente acolhido. Sabe que não pode receber a eucaristia, mas agradece todos os dias a Deus, por se sentir acolhido na Igreja. Foi o grupo, disse Luizinho, que me trouxe de volta! Leno foi outro que passou um tempo longo desempregado. A esposa, professora, pegou mais aulas pra compensar. Tiveram que cortar despesa, dispensando a empregada. Leno tinha vergonha de dizer, mas era ele que arrumava a casa, fazia comida e arrumava as crianças pra ir à escola.  “O grupo me fez criar coragem, levantar a cabeça e vencer essa dura etapa” – lembrou Leno. Não houve tempo para todos contarem sua história, mas, ouvindo tudo isso, ficou muito claro. O grupo era, mesmo, uma família de famílias. A amizade, a compreensão, o perdão são o remédio para tantas situações da vida que, às vezes, nem a família de sangue consegue resolver. Hoje muitas famílias vivem isoladas, passam por situações inesperadas e, mesmo com a facilidade de comunicações, o que faz falta é a presença, a segurança, um abraço, a paciência de escutar, a experiência do perdão, tudo isso à luz da Palavra de Deus. Eis a importância do pequeno grupo de vivência da fé. Lembrei a eles que Jesus havia dito: “Quem é minha mãe, quem são meus irmãos? Aquele que faz a vontade do meu Pai, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe”. (Mt 12,48-50) A pequena comunidade, onde as pessoas partilham a fé, e as experiências mais importantes da vida é, de fato, uma verdadeira família.

É Natal outra vez

Lembrei-me dessa história porque estamos na época dos grupos de Novena de Natal, e é uma alegria saber que, em nossa diocese, os grupos crescem a cada ano. Mas ainda são poucos, comparando com os Grupos de Reflexão Permanente (GRPs) que eram numerosos no passado, e que foram responsáveis pela boa formação de muitos dos que hoje são boas lideranças. É necessário que as famílias reorganizem os grupos, tomem nas mãos e na oração a Palavra de Deus. E não só durante tempo do Advento e Natal, mas também na Quaresma, Páscoa e Tempo Comum. Os grupos de famílias devem oferecer aos cristãos aquilo que muitas vezes falta na grande Igreja paroquial, ou nas capelas: a experiência de vida comunitária. De fato, para muitos cristãos, a prática da religião acaba se resumindo em ir à Igreja, “assistir” a missa (essa palavra descreve bem a falta de engajamento) e voltar pra casa. Sem verdadeira experiência de comunidade, a eucaristia, nossa maior riqueza, acaba se tornando, para muitos, mera obrigação, um peso a ser descartado. Alguns, se ligam à religião através dos Santuários, fazendo peregrinações, ou acompanhando pela TV, sem a eucaristia. Ou simplesmente trocam a missa por outras atividades como passeios, descanso, vida doméstica, mas sem o encontro com a comunidade e com Deus. Uma mãe, certa vez, ficou vermelha de vergonha com a resposta do filho adolescente, quando, na presença do padre, ela cobrou: “Explique ao padre, querido, por que você não quer mais ir à missa”. “Porque acho um tédio, mãe!”. Sinceridade à parte, que grande caminho temos que empreender, na re-evangelização de um número sempre maior de cristãos afastados. Como faz falta, dizia o Papa Francisco, uma Igreja que saiba caminhar ao lado das pessoas que estão nessa “noite” da falta de fé. O tempo do Natal é apropriado para isso: desenvolver a “cultura da proximidade”. As pessoas andam tão ocupadas, sem tempo para “gastar” com os afastados. Os próprios padres andam sempre ocupados, especialmente nesta época de muitas confissões, celebrações de primeira comunhão, crismas. Mas o Papa tem se dirigido a eles também, quando fala da Igreja próxima das pessoas, acolhendo a todos com bondade, misericórdia, perdão, acompanhamento, sem exclusão de ninguém. É isso o Natal.

Renovação Paroquial

A Igreja, no Brasil inteiro, vem fazendo um caminho de renovação espiritual, que neste ano especial teve como foco a Paróquia, a estrutura paroquial, tão antiga, tão útil, mas com necessidade de uma reformulação urgente. E a resposta que mais tem se configurado como promissora, é a transformação da grande comunidade paroquial numa rede de pequenas comunidades. Um estudo feito pela CNBB e aprovado na reunião anual dos Bispos, em abril deste ano, teve o sugestivo título de “Comunidade de comunidades: uma Nova Paróquia”. Este estudo está provocando em todas as dioceses, uma reflexão que deve apontar para uma paróquia mais acolhedora e missionária, e isso vai acontecer se a paróquia se tornar uma rede de pequenas comunidades, onde ninguém fique de fora. A matriz e a capela continuam sendo importantes como lugar da vida eucarística e dos sacramentos, centro de animação, de formação de lideranças, administração, serviços de secretaria e coordenação. Mas a experiência comunitária, os laços afetivos fortes, a partilha de experiências de vida, isso acontece nos grupos menores. O grupo, por estar presente entre as casas, faz também um trabalho missionário, acolhendo os afastados, indo ao encontro dos doentes, dos que se sentem sozinhos, dos enlutados. O grupo reúne crianças e idosos, jovens e casais, cada um com sua linguagem seu modo próprio de entender a Palavra de Deus e a vida. O grupo, a partir do estímulo da Palavra de Deus, pode motivar os cristãos a uma participação mais consciente na vida social, política, empresarial, nas associações de moradores, nos conselhos públicos, nas instituições governamentais, deixando a marca do evangelho nesses ambientes, hoje, descristianizados. Os grupos, quando conduzidos de forma coordenada, são um braço forte da Igreja paroquial nas ações missionárias, nas campanhas beneficentes, na presença pública da Igreja, na transformação da sociedade.

A conversão pastoral da Paróquia

O tema da renovação paroquial voltará à mesa dos Bispos do Brasil, na assembleia anual, em maio do próximo ano em Aparecida. Deverá estar acrescido de inúmeras experiências e debates realizados durante o presente ano, em todas as regiões do país. Terá a influência da nova Exortação Apostólica, publicada ao final do Ano da Fé, que tem um título inspirador: “A Alegria do Evangelho”, bem ao modo e ao estilo do papa Francisco. Um novo documento da CNBB, que tem como título sugerido “A conversão pastoral da Paróquia”, será estudado e votado pelos Bispos para nortear a renovação paroquial. Conversão pastoral é uma expressão instigadora. Ela nos leva ao documento de Aparecida que pede que as “estruturas ultrapassadas”, que não evangelizam, sejam corajosamente abandonadas. Mas quais são elas? Na hora de definir, na prática, o que precisa ser abandonado, empacamos. Mas devemos avançar. Mais do que pensar em novas estruturas, deveremos pensar em recuperar as relações interpessoais, o convívio, o alívio da amizade, num mundo onde os vizinhos são desconhecidos ou até hostis. São exemplos de estruturas a ser transformadas: uma igreja voltada para si própria, que só cuida daqueles que já são fiéis, grupos fechados, movimentos desligados do restante da vida paroquial, uma igreja fechada para os necessitados, a competição entre os grupos, o improviso e a falta de plano pastoral.

Olhando para 2014

Fim de ano, tempo de balanço, deixo aqui também um estímulo a todos os grupos de Novena de Natal. Muitos se reúnem somente nesta época, e depois esperam o próximo Natal. Que tal combinar desde já a continuidade, por todo o ano que vem?

– Aos Conselhos Paroquiais, peço uma atenção especial para que não faltem exemplares suficientes dos roteiros da Quaresma e Páscoa, e também para o Tempo Comum. Uma excelente iniciativa seria reunir os animadores de pequenos grupos para um estudo do manual de “Espiritualidade e Missão dos Animadores de Grupos”, do Regional Sul II.

– Que tal formar um grupo de estudos para ler juntos a Exortação “Evangelii GaudiumA Alegria do Evangelho”, do Papa Francisco (é fácil baixar o texto na Internet).

– Uma atenção especial daqueles que haverão de participar da Assembleia Diocesana, em 22 de fevereiro próximo: refletir sobre os temas propostos pela Coordenação da Ação Evangelizadora, apontando caminhos, em sintonia com as lideranças e com a realidade da comunidade local.

………..

Não posso deixar de contar com as orações dos muitos grupos de Novena de Natal, para que tenhamos um Ano Novo abençoado. Sabemos todos que esse grande empenho pela renovação paroquial não está alavancado na nossa capacidade de traçar estratégias e planejamentos. É certo que eles são importantes, mas o seu sucesso reside mesmo, e se fundamenta, de fato, na oração e na mão generosa de Deus. Um feliz e Santo Natal a todos os leitores e amigos do Estrela Matutina.

Dom João Bosco, ofm
Bispo Diocesano de União da Vitória – PR
dbosco@dbosco.org

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