A Igreja que brilha nas palavras e atitudes do Papa Francisco

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Jornal Setembro

A Jornada Mundial da Juventude, tão esperada e preparada com carinho pelos jovens, passou. Deixou um rastro luminoso. Muitos comentaram, mostraram surpresa, dentro e fora do ambiente da Igreja. Não se esperava um papa assim tão próximo das pessoas, de carro aberto, de coração aberto, sem medo, conversando francamente com jornalistas sobre temas nem sempre agradáveis, mas com uma simplicidade e franqueza que dava gosto.  O que fica pra nós de permanente, de sólido após a passagem do Papa Francisco pelo Brasil? Os jovens que ouviram sua palavra, que acompanharam os seus passos na TV, que cantaram em Copacabana “Esta é … a Juventude do Papa!”, que voltaram para casa animados e alegres, o que farão agora? Já é possível antever os frutos positivos dessa incrível multidão de fiéis reunidos? Haverá frutos duradouros? A grande imprensa agora se volta para a Copa do Mundo e para as eternas desavenças partidárias, em constante busca de espaço para as próximas eleições. Já esqueceram o Papa. E nós, e a nossa Igreja? O que podemos lembrar e aprender de sua passagem pelo Brasil?

A primeira viagem do Papa Francisco

Eleito em março último, o Papa Francisco tinha, na sua primeira visita, os olhares não só dos católicos, mas de todo o mundo. As manifestações populares, o vandalismo dos protestos, fazia prever alguma tragédia. E o que, de fato, o Papa mostrou, em discursos e gestos, foi um novo perfil da Igreja. Mostrou por que razão o Espírito Santo o escolheu como sucessor de Pedro. As lições do Papa Francisco podem, então, nos orientar no momento presente. Para nossa reflexão diocesana, proponho estas reflexões.

Aos jovens, carinho e entusiasmo

Como primeiros destinatários da Jornada, os jovens receberam do Papa Francisco um impulso muito forte de encorajamento e confiança: chamou-os de “janela para o futuro”; “menina dos olhos da Igreja”; “vocês possuem uma sensibilidade especial frente às injustiças”; “a Igreja precisa de vocês, do entusiasmo, da criatividade, da alegria que os caracterizam”. O papa também lançou desafios: “nunca desanimem, não percam a confiança!”; “jovem, você vai ser covarde como Pilatos, ou corajoso, como o Cireneu e Maria?”; “Quero, sim,  que façam barulho, quero que vocês se façam ouvir nas dioceses, que saiam pelas estradas…”; “façam-se ouvir!”; “quero que nos defendamos de tudo o que é mundanismo, imobilismo e comodidade”; “Tenham coragem de ir contra a corrente”; “sejam protagonistas, não fiquem a reboque da História. Não fiquem pra trás”. Deixou clara a tarefa dos jovens: “Repitam comigo: “Quero ir, e construir a Igreja de Cristo”. “Será que vão esquecer que hoje disseram “sim”? (a multidão responde um sonoro “não!”, e o Papa completa: Ah, assim estou gostando…”; “Não sejam covardes, saiam para a vida. Jesus não ficou preso num casulo. Saiam às ruas, como fez Jesus”. Estas poucas palavras do Papa mostram sua esperança de que a juventude acolha o mandato de Cristo: Ide, e evangelizai.”

Aos bispos e aos sacerdotes

A palavra do Papa Francisco não se restringiu aos jovens, mas foi uma sacudida em toda a Igreja. Em alguns momentos, o Papa falou especialmente aos Bispos e Sacerdotes, como o fez na Catedral do Rio de Janeiro, e também num encontro reservado com os bispos do Brasil, na residência do Arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Orani Tempesta. Usou palavras assim: “Devemos servir a Cristo nos pobres”. “Não poupemos forças na formação da Juventude”. “Os jovens precisam ser escutados”, “Ajudemos os jovens a descobrir a coragem e a alegria da fé”. Aos sacerdotes, disse: “Não podemos ficar encerrados na paróquia, nas nossas comunidades. Não se trata de simplesmente abrir a porta para acolher, mas sair pela porta afora, para procurar e encontrar”. “Decididamente pensemos a pastoral a partir da periferia, daqueles que estão mais afastados, daqueles que habitualmente não frequentam a paróquia. Também eles são convidados para a mesa do Senhor”. No encontro reservado com os bispos brasileiros, disse: “Temos hoje que inserir-nos em um mundo de feridos, que têm necessidade de compreensão, de perdão, e amor”. E inventou uma palavra no improviso: “É tempo de misericórdia, temos que sair para as ruas, ser “rueiros”, sair para “misericordiar”.

A Igreja do papa Francisco

Bem antes da explosão da Jornada, aliás, desde o seu primeiro dia de pontificado, o Papa Francisco vem traçando um perfil da Igreja muito original. Ele não o impõe à Igreja como regra, ou como doutrina, mas convence pela simpatia, pela coerência, por gestos oportunos e precisos. Os dias do Rio de Janeiro só reforçaram e deixaram mais marcados esses traços. Se passamos um olhar sobre seus pronunciamentos, como também sua escolha pessoal de encontrar-se com dependentes químicos, com a comunidade pobre da Varginha, e somamos com suas entrevistas desarmadas, na TV e durante os voos, isso nos permite entrever esse novo perfil da Igreja ricamente desenhado. Não é fácil sintetizar em alguns parágrafos. Mas arrisco colocar alguns marcos, mais exatamente aquilo que os dias da Jornada Mundial da Juventude deixaram em mim.  Você leitor, que acompanhou pela TV, você jovem que foi ao Rio, ou ouviu os colegas contarem, pode compartilhar comigo essas percepções.  São pontos que nos convidam a estar em sintonia com o ministério de Francisco, mas ao mesmo tempo ligados na nossa realidade local. Resumo aqui em 5 pontos:

Está muito claro que o Papa Francisco não quer uma Igreja que fica apenas cuidando de si mesma, sempre se enfeitando diante do espelho, ou da penteadeira. Quer uma Igreja que saia do isolamento, levando o Evangelho para o mundo. Igreja próxima da vida das pessoas, falando uma linguagem compreensível, sobretudo aos mais simples. A Igreja não está no centro. Quem está no centro é Jesus Cristo, que a envia para a periferia. Periferia não só geográfica, mas existencial.  Quando a Igreja fica no centro, ela se torna uma “Obra”, uma ONG. Deixa de ser Esposa para ser Administradora. De servidora, passa a ser controladora. Torna-se, no vocabulário do Papa Francisco, “auto-referencial”, e assim a Igreja adoece. Sair de si é o caminho para o encontro e para a fecundidade. Falamos muito em Igreja missionária, em estado permanente de missão. Mas até que ponto o fazemos? Tornar esse espírito missionário uma prática quotidiana, aqui está o primeiro desafio.

No Hospital São Francisco, diante dos dependentes em recuperação, o Papa lembrou que a conversão do jovem Francisco se deu quando ele abraçou um leproso e sentiu que estava abraçando a carne sofredora de Cristo.  A Igreja irá, de fato, se converter e encontrará sua razão de ser, em Cristo, quando fizer passos significativos em direção aos necessitados. O Papa citou Madre Tereza de Calcutá: “Devemos estar muito orgulhosos da nossa vocação, que nos dá oportunidade de servir a Cristo nos pobres”. “Devemos ir até eles como faz o Bom Pastor”. Diversas vezes o Papa se referiu à Igreja como mãe, que não exclui ninguém. E fazia com os braços o gesto da mãe e embalar uma criança. Uma mãe não exclui, não maltrata, não fere ninguém, mas ama incondicionalmente. E fica para nós a pergunta: a nossa Igreja diocesana é de fato mãe, para os necessitados?

A expressão foi recorrente, quase sempre dirigida aos jovens, descrevendo os traços da cultura do provisório e do descartável, do comodismo, da exclusão e da morte. Contrariar essa corrente é ser Igreja profética.  “Não se cansem de trabalhar por um mundo mais justo e mais solidário!” Não desanimem, não percam a confiança, não deixem que se apague a esperança”. A Igreja, segundo o Papa Francisco, não condena nem impõe verdade alguma. Ela antes foi alcançada e transformada pela verdade que é Cristo, e por isso não pode deixar de testemunhá-lo; defendendo a vida, que é um dom de Deus, defendendo a família constituída pelo amor, e aberta à geração dos filhos, a educação integra; defendendo o meio-ambiente propício ao crescimento da vida. Pergunto: que sinais mostram se a nossa Igreja está surfando na corrente do mundo, ou profeticamente se pondo contra a corrente?

E esse testemunho deve ser alegre, segundo o Papa Francisco. No encontro reservado com os bispos do Brasil, Francisco fez uma longa consideração sobre um certo desânimo que paira sobre as pessoas, que ele comparou àquilo que sentiam os discípulos de Emaús, ao se afastar de Jerusalém. Estavam decepcionados com o fracasso da cruz. “É grande hoje a sensação de abandono e solidão. Faz falta uma Igreja que não tenha medo de entrar na noite dos homens”, disse o Papa. “Precisamos de uma Igreja capaz de lhes fazer companhia”. Precisamos de uma Igreja capaz de devolver a cidadania a muitos de seus filhos que caminham como que em um êxodo”.  Partindo dessa constatação, o Papa sugere que se dê prioridade à formação “de qualidade”, a todos, a começar pelos bispos, sacerdotes, religiosos e leigos. A pergunta do Papa: “Se não formarmos ministros capazes de aquecer o coração das pessoas, de caminhar na noite com elas, de recompor suas desagregações, que futuro podemos esperar?” Minha pergunta: Nossa Igreja está investindo nessa formação permanente? É suficiente a formação que temos?

Neste último ponto o Papa Francisco se mostrou imbatível: suas palavras foram, de ponta a ponta, confirmadas com sua vida e coerência. A simplicidade, a alegria, a coragem, o bom humor o acompanharam em todos os encontros. Encontros de alma aberta, entrevistas de câmera aberta, conversa direta com jornalistas, coração aberto sem receio de nenhum tema, mesmo os mais polêmicos, mostraram que o Papa quer uma Igreja que não tem nada a esconder nem disfarçar. A todos pediu, com sinceridade, que rezassem por ele. Podemos dizer que Francisco inaugurou um novo estilo de ser papa. Nada de excepcional. Pelo contrário, uma pessoa normal, que carrega sua mala, prefere morar e tomar refeições junto com outras pessoas, não exclui nem discrimina ninguém, não pensa em cansaço, gasta-se em atenção para com todos. O que sugere esse modo de ser do Papa para toda a Igreja? Especialmente a nós pastores? Aos religiosos e leigos?

Minha última observação: Estamos ainda tempo de firmar um caminho para a nossa Pastoral Juvenil, dando continuidade ao que foi organizado pelos jovens envolvidos na preparação e vivência da JMJ, tanto aqueles que foram ao Rio como os que acompanharam daqui.  Se respondermos conscienciosamente as perguntas que brotam em cada um dos cinco temas elencados, não teremos aí um ponto de partida para a evangelização da juventude, e que pode rejuvenescer a toda a Igreja?

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