Redescobrir, cultivar, testemunhar a beleza e a alegria de sermos cristãos

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A Fé é dom de Deus. Mas como nas nossas boas lavouras, o dom da vida só chega ao pleno fruto se for escolhida a boa semente, cuidada com labor e constância, se as pragas são combatidas, se os tempos e as estações que Deus, em sua bondade nos oferece são respeitados. Temos um ano graciosamente oferecido por Deus, e dado ao mundo pelo papa Bento XVI, para intensificar e purificar a nossa Fé. Um Ano da Fé que se inicia no dia 11 de outubro de 2012 e irá se encerrar com farta colheita de frutos, em 24 de novembro de 2013, Festa de Cristo Rei.

Como nós recebemos esse presente especial de Deus? O que prepara a Igreja para o povo cristão? Nossa Diocese, como irá celebrar? Que iniciativas, eventos, qual o programa que cada Paróquia irá preparar no decorrer deste ano, para merecer os frutos prometidos? É o que devemos responder, com seriedade, juntos, em famílias, nos Movimentos e Pastorais, nas nossas Igrejas e comunidades, à proposta da Igreja?.

O desejo de Deus está inscrito no coração do ser humano, já que o homem é criado por Deus e para Deus.”

Assim começa o primeiro capítulo do Catecismo da Igreja Católica. É esse desejo uma espécie de “assinatura” que o Criador deixou ao concluir sua obra. Por isso mesmo, o ser humano só pode conhecer a si mesmo, e só realiza plenamente o seu ser mais profundo, quando voltado para o horizonte do infinito. Deus se revela ao ser humano carente de sua presença, mas não se impõe. Acreditar é um ato de liberdade. “Provai e vede quão suave é o Senhor!” cantávamos no salmo responsorial de um domingo desses (Sl 33). Tão suave e recatado é Deus que, para experimentar sua presença é preciso abrir-lhe a porta, aceitar seu convite, pôr-se à procura. Negar esse desejo, deixar-se limitar pela ilusão da vida material, entrar no jogo da competição e do consumo, da alegria rasa das vaidades e do culto de si mesmo, cria um ser humano distorcido, um mundo injusto e desumano, um vale-tudo feito de miséria, rapina e barbárie. Nesse mundo em crise constante, a fé também entra em crise. Ou, como é possível crer num Deus bom e justo, se há tanta injustiça e maldade, se os desonestos prosperam, e os que lutam pelo bem são calados à força? Recobrar a fé é também reconduzir o mundo à justiça e ao amor, e isso é nossa tarefa. De fato, se acreditamos num Deus que fecha os olhos diante do sofrimento inocente, de poderosos que enchem os bolsos e desfrutam o prazer de viver,  aproveitando de tudo o que Deus criou, e rindo dos pobres, a quem sobra a ignorância, a dor, o lixo e a fome, esse Deus precisa ser negado e questionado. De fato, só podemos experimentar Deus vivo e verdadeiro, no horizonte da fé, se nos deixamos converter pelo Verbo feito carne. Ele não questionou o sofrimento inocente, sofreu-o. Não compactuou com a injustiça, venceu-a. É nele, divino, que encontramos o humano mais humano.

O dia 11 de outubro foi escolhido pelo Papa, porque neste dia se comemoram os 50 anos do Concílio Vaticano II”

 

O Concílio Vaticano II, que reuniu todos os bispos do mundo, entre os anos de 1962 a 1965 foi um grande marco: colocou a Igreja de frente para o mundo e para as grandes transformações que estavam para acontecer, entre elas a grande crise da Fé, que hoje assistimos. O Concílio foi uma fortíssima sacudida na Igreja, promovida pelo Espírito Santo, um grande tremor que continuou abalando e acordando a Igreja nos eventos que daí brotaram, como as Conferências Continentais, os Sínodos, a renovação da Liturgia, da Catequese, da Teologia, das práticas eclesiais, à luz da Palavra de Deus e da riqueza guardada pela Igreja através das gerações. Para celebrar este cinquentenário, teremos um novo Sínodo em outubro, com o tema “A Nova Evangelização para a transmissão da Fé Cristã”. Não se trata de um novo evangelho nem de novas estratégias pastorais. O que busca o Sínodo, sabendo da dificuldade atual de transmitir a fé para as novas gerações, é buscar uma resposta adequada aos tempos de hoje para a necessidade de Deus que continua viva no coração dos homens, apesar do “apagão” da fé, promovido por um mundo em forte mudança. Re-descobrir, é a palavra sempre usada pelo Papa Bento XVI, para motivar os cristãos nessa busca.

Desejamos que este Ano suscite, em cada crente, o anseio de confessar a fé, plenamente, e com renovada convicção, com confiança e esperança.”

O cristão deve chegar a um conhecimento mais profundo e sistemático do conteúdo da Fé. Esse é o pedido expresso por Bento XVI no Motu Proprio “Porta Fidei”, onde convoca todo o povo cristão para o Ano da Fé. Para isso, um valioso instrumento que deve ser conhecido e amado é o Catecismo da Igreja Católica (CIC), que completa, também neste mês de outubro, 20 anos. O CIC foi um fruto direto do Concílio Vaticano II, e reúne, de forma segura e suficientemente ampla, aquilo que a Igreja guarda, com zelo, desde os tempos apostólicos, como verdade de fé. É este Catecismo que serve de base para todos os manuais de catequese, é fonte necessária para o trabalho evangelizador. O CIC possui uma versão resumida, chamada “Compêndio”, também muito prática para a catequese. E por último, o Papa Bento XVI quis entregar aos jovens uma versão do CIC que em todas as línguas tem o mesmo nome “Youcat”, ilustrado e bonito, escrito numa linguagem própria para os jovens. E muito oportuno, pois em julho do próximo ano, alguns milhões de jovens virão do mundo inteiro para o Rio de Janeiro, e o Papa também virá para encontra-los e levá-los a um compromisso sério com Jesus Cristo, o único Salvador. O Papa se dirige aos jovens do mundo inteiro com um pedido: “Estudai o catecismo, este é o desejo do meu coração. Para isso, sacrificai tempo! Formai grupos de estudo e redes sociais, partilhai-o entre vós na Internet! Tendes de saber em que credes. Tendes de estar enraizados na fé ainda mais profundamente que a geração dos vossos pais, para enfrentar os desafios e as tentações deste tempo com força e determinação”(Youcat). O desejo do coração do Papa é também o nosso desejo, por isso, estaremos, em breve, entregando às paróquias dezenas de exemplares do Catecismo jovem, para estudo e reflexão.

Programação da Diocese, das Paróquias e Comunidades

A redescoberta, o cultivo e o testemunho da beleza de sermos cristãos resultam do nosso labor e constância, como dissemos no começo, lembrando a lavoura. O Vaticano já divulgou uma programação do Ano da Fé, em nível mundial, que começa com a solene abertura, dia 11, na Praça de São Pedro, em Roma, onde estará o Papa e os bispos participantes do Sínodo, vindos do mundo inteiro. Estão previstas celebrações, congressos, romarias, exposições, jornadas de estudos e outros eventos em diversas partes do mundo. Entre elas figura a Jornada Mundial da Juventude, no Rio de Janeiro, como evento oficial do Ano da Fé. Uma nota da Congregação para a Doutrina da Fé, a pedido do Papa Bento XVI,  sugere que os Bispos dediquem uma “Carta Pastoral” ao tema da Fé. Entendo que a minha carta pastoral é esta primeira página do Estrela Matutina, que chega, a cada mês, às mãos dos Párocos, dos Conselhos, das lideranças, e de todos os fiéis. Sirvo-me desta página para refletir com toda a Diocese e pedir aos Conselhos, aos movimentos e grupos pastorais, que organizem um Calendário Paroquial do Ano da Fé. Com criatividade, entusiasmo e paixão, envolvam as crianças, os jovens, os casais, os Catequistas e Meces, Religiosos, seminaristas, alunos dos cursos de teologia, associações profissionais,  convidem os irmãos de outras religiões e até os que dizem não ter nenhuma fé, para um diálogo bom e fraterno. Coloco aqui, alguns pontos para compor esse calendário:

Sugestões para o Calendário Diocesano e Paroquial do ANO DA FÉ

  1. Abertura solene – No dia 11 de outubro acompanharemos a solene abertura feita pelo Papa, no Vaticano. Para nós em nível diocesano, será no dia 12, em nossas principais celebrações do Dia de Nossa Senhora Aparecida. Ninguém melhor do que Maria, “bem-aventurada porque acreditou” (Lc 1,45) para nos introduzir neste ano de graças. Em União Vitória será no Ginásio Isael Pastuch, com todas as paróquias da cidade, às 15 horas. As demais paróquias podem programar também uma abertura solene assim, com gente de todas as comunidades. A seu tempo deveremos pensar também numa celebração muito significativa de encerramento, na Festa de Cristo Rei, de 2013.
  2. Datas Litúrgicas –  No Calendário Paroquial  podem ser colocadas datas e eventos ligados ao tempo litúrgico, desde que se programe algo na linha do reavivamento da Fé. Exemplos: Tempo do Advento, Campanha da Evangelização, encontro dos grupos de Novena de Natal, Semana Santa e Páscoa, Festa do Padroeiro com tríduos e novenas especiais, Corpus Christi, Santos e Beatos brasileiros, meses temáticos (Mês das Missões, Mês de Maria, Coração de Jesus, Vocações, Mês da Bíblia…)
  3. Sacramentos – O Ano da Fé será ocasião de uma vivência mais intensa dos Sacramentos. É neles que encontramos Jesus Cristo vivo, a plena realização todo o desejo do coração humano.  As celebrações de Crismas e Primeiras Comunhões podem entrar no calendário Paroquial com alguma iniciativa aos ligue ao compromisso da Fé. Os mutirões de Confissões podem ser programados com a participação dos padres vizinhos, especialmente nos tempos fortes de Advento, Quaresma, e outras datas. Preparação especial para a legitimação do Matrimônio, em celebrações comunitárias. A unção dos Enfermos pode ser preparada e administrada em celebrações especiais na Igreja, nos Hospitais  e nas casas. A preparação de Pais e Padrinhos de Batismo pode ser ampliada e comunicada a toda a Igreja como testemunho.
  4. Atividades Missionárias – Será um tempo favorável para iniciativas da Equipe Missionária Paroquial, Domingos Missionários, visitação permanente, bênçãos de casas, empresas, escolas, implantação da Infância e Adolescência Missionária, Cuidado especial aos doentes e idosos, Formação Missionária. Os grupos de Novena de Natal podem continuar depois na Quaresma e Campanha da Fraternidade, e também durante o Tempo Comum, com os roteiros do Regional Sul II.
  5. Juventude – Uma atenção especial merece a Juventude durante o Ano da Fé. A preparação da Jornada Mundial da Juventude irá trazer uma intensa atividade aos grupos, inclusive a acolhida da Cruz e do Icone de Maria, no dia 1º de fevereiro de 2013. A Campanha da Fraternidade, sobre o tema da Juventude pode ter grande relevância. A Semana Missionária que antecede a Jornada, assim como os dias da visita do Papa, deverão contar com programação especial para jovens e adultos, nas paróquias e comunidades. Passada a Jornada, a evangelização da Juventude deve continuar na programação do Ano da Fé.
  6. Retiros e vigílias – Retiros para grupos específicos como professores, profissionais da saúde, empresários, agricultores, zeladores de Capelinhas e outros podem constar na programação. Também as Vigílias em torno de temas e datas especiais como a Semana de Orações pela Unidade dos Cristãos, Dia da Santificação do Clero, Semana da Família, Semana da Vida, Dia do Nascituro, podem ser muito ricas.
  7. Romarias – O Santuário Diocesano de Nossa Senhora do Rosário pode ser o destino de uma romaria paroquial, ou de cada um dos Movimentos, além da Romaria Diocesana. Podem ser organizadas peregrinações a outros Santuários,  como Paranaguá, Aparecida, Nova Trento…)
  8. Jornadas de Estudo – Merecem atenção especial o documento “Porta Fidei”,  o Catecismo da Igreja Católica, as proposições do Sínodo da Nova Evangelização.  Temas específicos ligados aos documentos do Concílio Vaticano II, as encíclicas e catequeses do atual Papa, podem ser objeto de Grupos de Estudo, Palestras, programados por setor ou grupos de paróquias.
  9. A Caridade – A fé sem obras é morta, e as obras de caridade são a expressão mais acabada da verdadeira fé. É imprescindível que a comunidade paroquial, no Ano da Fé, abra espaço para ações de promoção humana, defesa da vida, atenção aos mais frágeis, respeito à natureza. Um bom projeto caritativo será, sem dúvida, o sinal da fé comprometida e do testemunho vivo de confiança no Deus da Vida.

10. Divulgação programação e das ações – A experiência de fé anseia por comunicar, tornar visível o amor de Deus encarnado na nossa vida pessoal e eclesial. No ano da Fé, podemos valorizar os testemunhos, os relatos e os acontecimentos mais marcantes. Podemos divulgar a programação, e depois as ações realizadas na comunidade paroquial através de uma bom e bem preparado Mural nas nossas igrejas. A programação clara, o convite à participação, boas fotos  e relatos expostos à leitura dos fiéis, alimentarão a fé e prolongarão os efeitos dos eventos realizados. Além de expor na comunidade, podemos publicar no site da Diocese, e também no Estrela Matutina, o que for bom para edificar, motivar e guardar na memória deste Ano da Fé.

 

Sejam estas poucas sugestões um incentivo e um convite para nos deixarmos guiar pelo Espírito Santo, que nos pode fazer ir mais longe, e que a intensa chama do seu amor, abra os nossos horizontes ao infinito.

Dom João Bosco B. Sousa, ofm

Bispo diocesano de União da Vitória, PR

dbosco@dbosco.org

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