Paróquia discípula, missionária e profética

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As três palavras que vão nortear a nossa Assembleia Diocesana, deste ano, estão na prioridade escolhida pela CNBB Regional Sul II, assim formulada: “Por uma paróquia discípula, missionária e profética”. As três palavras estão no Objetivo Geral, aprovado pela CNBB Nacional, para o planejamento da ação evangelizadora no Brasil até 2015.

O Regional Sul II, já faz anos, tem a renovação paroquial como prioridade para todo o Paraná. A novidade é significativa: não se trata apenas de um cristão, você, eu, o catequista, o padre, se tornarem discípulos, mas a paróquia se tornar discípula, a paróquia se tornar missionária e profética. Isso implica que não só as pessoas, mas a estrutura paroquial se modifique. A “conversão pastoral”, expressão que vem da Conferência de Aparecida, não deve acontecer apenas nas pessoas. Isso só já seria um grande passo. Mas deve chegar a mudar a organização paroquial, de modo a abrir novos espaços, redirecionar os recursos disponíveis, cortar excessos e práticas sem muito sentido e, com muito critério, jogar fora aquilo que não serve mais. Será que estamos dispostos a isso?

Muito critério

E o que mudar, o que conservar? Quando se faz uma reorganização em casa, as opiniões divergem: há aqueles que gostam de guardar tudo, roupas antigas, aparelhos quebrados, restos do passado, objetos de arte, coisas que só têm valor estimativo, têm uma história. Essa roupa apertada, se eu emagrecer um pouco pode ser útil… aqueles livros, se eu tiver tempo, vou ler… o velho baú, nem sei mais o que há lá dentro… mas tudo precisa ser guardado. Outros gostam de jogar tudo fora, não se usa mais, pronto: vai para o lixo. Na Igreja acontece o mesmo. As práticas pastorais, as orações antigas, os folhetos amarelados, o calendário de atividades, o que conservar? O que deixar? Não podemos nos basear nas opiniões, que são divergentes. Devemos partir do Evangelho, e a Igreja nos facilita isso com as Diretrizes. Elas são a interpretação do Evangelho para o hoje da Igreja. Ali está descrito o que tem valor permanente e o que deve ser deixado.

Como um pão formado de muitos grãos de trigo, também as Diretrizes são fruto de um “recolher dos grãos” de todo o país, grãos que são amassados e fermentados à luz da Palavra e do ensinamento da Igreja: são o alimento oferecido às nossas comunidades com a garantia de ser alimento bom e saudável para todos. Esse é o critério da renovação paroquial, que, para estes próximos anos, se expressa assim: nossas paróquias devem ser mais discípulas, missionárias e mais proféticas. Vamos ver isso mais de perto.

Paróquia discípula

Alguém que procura a paróquia para conhecer melhor a Jesus e seguir seus passos, encontra ali um Curso Bíblico, uma formação catequética para adultos, pessoas dispostas a aprender junto, aprofundar a fé? O mundo de hoje não oferece mais, mesmo que de forma difusa, o conhecimento de Jesus Cristo. Pergunto até se os nossos cristãos mais participantes conhecem mesmo a Jesus, e sabem onde encontrá-lo. São tantas as ideias desencontradas! Observei, tempos atrás, numa igreja, enquanto se fazia adoração ao Santíssimo, um casal que entrou, passou pelo corredor lateral e foi ajoelhar-se diante da imagem de Santo Expedito. Deviam estar necessitados de alguma “graça urgente”, como se atribui ao santo. Deixaram o Santíssimo de lado. Outra vez, na missa, era hora mesma da consagração, uma senhora foi até a mesa, no fundo da Igreja, para escrever no papel o seu pedido, para colocar na caixinha que estava em frente ao altar. Essas pessoas sabem, de fato,  quem é Jesus, onde encontra-lo? São exceções, dirá alguém! Mas, olhando bem, não faltaria para a nossa gente, para nós todos, uma formação mais completa, mais profunda, mesmo básica, do conteúdo da nossa fé cristã? Estamos a comemorar 20 anos da publicação do Catecismo da Igreja Católica. Nosso povo conhece o que ali está, formulado pela Igreja com toda a garantia de uma doutrina, de acordo com a Palavra divina e com o ensinamento seguro da Igreja? Então não é estranho que fiquem com dúvidas, quando ouvem ideias confusas na televisão, ou a pregação de um pastor de outra religião, ou quando, na sua própria família, a diversidade religiosa torna impossível a boa convivência.

Uma paróquia discípula deve oferecer a todos a iniciação, ou re-iniciação, se for o caso, nos mistérios da fé; deverá priorizar a pastoral bíblica nos grupos de família, deverá ter uma preocupação exagerada com a formação e com a perseverança na catequese, gastando recursos importantes com isso. Caso contrário, outros mestres (e não faltam mestres interesseiros e falsos) tomarão o lugar do único Mestre.

Paróquia Missionária

 Já fizemos alguns progressos, desde que a Conferência de Aparecida propôs a todo o Continente latino-americano uma urgente “Missão Continental”. Mais do que programas missionários ocasionais, a urgência é tornar a Igreja toda permanentemente, missionária. Nossa equipe Missionária Diocesana tem prosseguido no seu programa e, neste ano, deverá ter atingido a metade das nossas paróquias, com um programa bem organizado de missões populares. Porém a continuidade do trabalho missionário não tem acontecido em nível paroquial. Daí a oportuna chamada da Assembleia Diocesana para a intensificação do trabalho missionário, antes e depois, da ação missionária diocesana.

Uma paróquia missionária tem que ter o seu programa de formação de agentes, visitação permanente, organizado por setores, e acompanhamento daqueles que são visitados, doentes, cristãos afastados, famílias enlutadas, necessitados, abrindo portas para que haja uma acolhida calorosa dos que querem ouvir a Palavra e seguir com a comunidade.

Paróquia profética

Esta palavra – profética – entrou depois, para fazer companhia aos discípulos missionários. O que ela quer dizer? O que faz uma paróquia profética? Embora se encontre no Objetivo Geral, não há, nas Diretrizes, nenhum capítulo ou frase especial explicando em que sentido a igreja deve ser profética. A expressão ocorre, tanto nas Diretrizes como no documento de Aparecida, em geral, como advérbio: agir “profeticamente”. “Profeta” é quem tem o pensamento em Deus, e a partir da fé fala em nome de Deus. Esta palavra está quase sempre ligada à coragem de se posicionar diante das ameaças à vida, à dignidade humana, à ecologia; ou então ao questionamento lúcido dos valores do mundo dominado pelo desejo de lucro e a consequente violência e exploração que daí decorre. Também é chamada de profética a “missão além-fronteiras” e a coragem de mudar atitudes e estruturas que não servem mais à evangelização.

Uma paróquia profética então seria aquela que, por suas escolhas e atitudes, questiona a sociedade. Aquela que investe em ações organizadas em favor da vida, dos necessitados, dos mais pobres. É profética a paróquia que não se restringe à beleza da liturgia e dos sacramentos, mas dedica parte significativa dos seus esforço e recursos a serviço da vida e da caridade.

As cinco urgências

Nossa Assembleia Diocesana acontece no dia 3 de março. É possível que este jornal só chegue às suas mãos depois que ela já tiver acontecido. Estaremos revendo as ações planejadas no ano passado e, depois, vamos juntar o que as paróquias refletiram sobre as cinco “urgências” da ação evangelizadora, como foi pedido no ano passado. É fácil perceber que as cinco urgências (Missão – Iniciação – Bíblia – Comunidade – Vida Plena) são engrenagens que levam exatamente a Paróquia a ser discípula, missionária e profética. Sirva, então, a reflexão deste mês, no Estrela Matutina, para você, leitor, possa preparar-se para receber os resultados da Assembleia, com vontade de ser membro dessa Igreja que é desafiada pelo mundo atual, criticada e até perseguida abertamente, no mundo inteiro. Mas que só tem uma atitude diante das ameaças do materialismo, do relativismo moral, da perda dos valores humanos: fidelidade ao Deus da Vida, que veio ao nosso encontro em seu Filho Encarnado, o qual nos deixou seu Espirito para nos fazer corajosos, na construção do seu Reino. Prepare-se: Vem aí o Ano da Fé, o Sínodo da Nova Evangelização, o encontro dos Jovens com o Papa no Brasil, e outros acontecimentos grandes, que nos ajudarão a dar os passos necessários.

Para aqueles que vão participar da Assembleia Diocesana e também para os Conselhos que vão posteriormente trabalhar sobre os seus resultados nas paróquias, nos Movimentos e Pastorais, a Coordenação Diocesana da Ação Evangelizadora propõe:

  • Rever as propostas da Assembleia do ano passado: o que foi efetivamente realizado, quais as dificuldades encontradas, como superá-las?
  •  Tomar as cinco urgências das DGAE, na perspectiva proposta pelo Regional  Sul 2:  Vamos lembrar que o planejamento diocesano deverá ficar em vigor até 2015. Então podemos pensar ações de longo prazo. O que faremos na direção apontada pela Assembleia, para que a Paróquia seja mesmo discípula, missionária e profética?
  • É possível que algumas paróquias avancem mais, outras menos, dependendo da sua realidade atual. Dentre as ações propostas, quais as que deverão ser assumidas por todos, no decorrer deste ano?

Dom João Bosco, ofm

Bispo Diocesano de União da Vitória

dbosco@dbosco.org

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