Entre a saúde e a doença, qual é o lugar da fraternidade?

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O tempo da Quaresma, que se inicia no próximo dia 22 de fevereiro, nos convida à conversão e à busca da santidade. No Brasil, a cada ano, na Quaresma, a nossa Igreja une a conversão a um tema especial, uma área da vida humana que carece de maior atenção para o exercício da Fraternidade. Neste ano, o tema é “Fraternidade e Saúde Pública”, iluminado pelo pensamento bíblico do Livro do Eclesiástico: “Que a saúde se difunda sobre a terra” (Eclo, 38,8).


O tema da saúde é central e muito próximo de cada um de nós. E já foi tema de outras Campanhas, como aquela 1981 (Saúde para todos) e está sempre de volta em outros anos, cada vez que se fala da vida, da ecologia, da dignidade das pessoas, do alimento, dos portadores de deficiência, enfim, a saúde é um dom de Deus, que nos abre as portas para todos os outros dons. Mas onde especificamente entra aí a Fraternidade que é o objetivo a ser alcançado na campanha? Saúde é coisa dos médicos. E saúde pública é obrigação do Governo. O que a Igreja tem a dizer?

A igreja tem muito a dizer, sim. Primeiro, é preciso antar que a Campanha da Fraternidade não é feita pra ficar entre as paredes da Igreja. É antes uma oportunidade de cada cristão católico, de cada comunidade eclesial convidar a todas as pessoas, as instituições,  sociedade, a nação, para um diálogo, neste caso sobre a saúde pública, e aí perceber onde estão as dificuldades, os entraves, as lacunas, os erros, as carências, as práticas que fazem muitos irmãos sofrerem, sobretudo os mais pobres. Encontrar caminhos para diminuir o sofrimento, a exclusão, a indignidade, eis o fruto da fraternidade.

Jesus, o ponto de partida

Jesus esteve sempre próximo dos doentes. Com compaixão e carinho, sempre lhes deu a maior atenção, a ponto de esquecer de si. Curou, não apenas a doença, mas ensinou ir às causas de nossos males, o pecado. Ordenou explicitamente aos discípulos que fossem pelo mundo e curassem as enfermidades. E para ilustrar o motivo da sua vinda, e convidar os discípulos a fazer o mesmo que ele, contou a estupenda história do homem caído à beira do caminho, quase morto (Lc 10, 30-37) e, depois de abandonado por dois compatriotas, foi socorrido pelo bom samaritano, que ou viu, teve compaixão, gastou tempo, dinheiro e cuidado com o desconhecido, restituindo-lhe a saúde e a vida.

No campo da saúde podemos dizer que há muitos irmãos e irmãs que se encontram à beira do caminho, e muitos chegam a morrer, nas filas dos hospitais, nas estatísticas da violência, nas malhas da ignorância, no abandono de muitos lares, na falta de medicamentos essenciais. O SUS, Sistema Único de Saúde, fez enormes progressos, mas ainda está longe de garantir o que é a sua finalidade declarada, de garantir a todos um atendimento igual, independentemente da situação econômica e cultural do cidadão. Quem não consegue pagar um plano particular, sabe o que estou dizendo. Praticamente a maior fatia das despesas com saúde no Brasil é bancada pela família, o Governo não paga nem a metade. Em países onde a saúde pública funciona, o Estado é responsável por ao menos 70% das despesas.  E ao lado da eterna falta de verbas para a saúde, soam estrondosas as presumidas somas dos desvios da corrupção, levantadas, filmadas e gravadas pela imprensa, sem que haja uma única punição. Os que deviam legislar em favor da saúde do povo estão mais preocupados com seus conchavos partidários, polpudos salários, indiretos ou descarados, porém sempre voltam ao tema da saúde quando fazem promessas antes das eleições.

A falta de um funcionamento eficiente da saúde pública dá margem a muitas distorções. A primeira e mais gritante é a diferença entre o atendimento do pobre, a espera prolongada, o descaso, e daquele que pode pagar o serviço particular. Os planos privados de saúde têm aí um amplo mercado. A saúde se torna um “negócio” lucrativo e fonte de desalmada exploração. Não faltam profissionais que oferecem tratamentos desnecessários ou de pouca eficácia, para arrancar algum dinheiro das famílias desorientadas. Outro modo triste de exploração da falta de saúde, e da ignorância, é a multiplicação de curandeiros e rezadores, igrejas milionárias, e a difusão de receitas milagrosas para todos os males.

A Igreja e os enfermos

E nós podemos mudar esse quadro trágico? A Igreja, colocando o tema da saúde em debate durante a quaresma, pode conseguir algum avanço? Pode, sem dúvida. Existem muitos, cristãos ou não, que estão em todas as áreas públicas e particulares, que se angustiam com isso e querem mudanças. É preciso juntar forças em torno de objetivos claros, e perceber que é tarefa de todos os cidadãos participar, discutir políticas públicas, acompanhar a aplicação dos recursos públicos exigindo transparência nos gastos com saúde,  cobrar que os avanços da ciência e da medicina não fiquem apenas como privilégio de um pequeno círculo de bem-aquinhoados, mas chegue a todos.

A Igreja vê no rosto do enfermo, sobretudo naquele que sofre dor e abandono, o corpo chagado do próprio Cristo Salvador. E, por essa razão, sempre tem feito muito na área da saúde. Basta ver a queda da mortalidade infantil proporcionada pela Pastoral da Criança, a melhora da qualidade de vida dos idosos, através da Pastoral da Pessoa idosa, os inúmeros Institutos e organizações que buscam recuperar os dependentes de álcool e drogas, Irmãos e Irmãs Religiosas que dedicam toda a sua vida no campo da saúde. Mas ainda é pouco diante da necessidade. Nossas comunidades podem fazer mais. A Pastoral da Saúde, mesmo contanto com incansáveis agentes é, de longe, insuficiente. Há um campo imenso de trabalho pastoral a ser feito junto aos doentes, no sentido de visitação solidária, mas também na área preventiva, na educação para uma vida saudável, e também na participação dos Conselhos Municipais de Saúde e Conferências que definem e acompanham as políticas públicas. Nossas paróquias fazem grandes investimentos na catequese, na liturgia, na ornamentação dos templos, mas são poucas que investem recursos em projetos sociais que promovam mudanças na vida e na saúde dos mais necessitados. É preciso aqui lembrar o Papa Bento XVI, na encíclica “Deus Caritas Est” (n.22), defendendo o trabalho social organizado pela comunidade: “praticar o amor para com os doentes e necessitados pertence tanto à essência da Igreja quanto o serviço dos Sacramentos e o anúncio do Evangelho”.

Caros amigos, o tema da Campanha da Fraternidade é rico, abrangente e de grande interesse social e espiritual. No quadro abaixo há dez sugestões (entre muitas outras) que poderão ser colocadas em prática pelas comunidades. As experiências mais expressivas, ou algum testemunho, poderão ser levados para a Missa do Crisma, dia 4 de abril em Antonio Olinto, na ocasião da Bênção do Óleo dos Enfermos. Para esta celebração serão bem-vindos representantes da equipe de Pastoral da Saúde de todas as paróquias da diocese.  Aproveitemos o tempo da Quaresma para uma conversão verdadeira, atenção voltada à sadia virtude da temperança, e uma caridade pastoral voltada para os enfermos, vendo neles o próprio Cristo bendito.

Dom João Bosco, ofm
Bispo Diocesano de União da Vitória
dbosco@dbosco.org

Dez sugestões

Tenho receio de que a Campanha da Fraternidade nos faça apenas visitar os números e estatísticas, cantar o hino da Campanha em nossas liturgias, achando que já estamos atarefados demais para enfrentar novos desafios. Lembro então aqui  alguns pontos e sugestões bem práticas para que “a saúde se difunda sobre a nossa terra”. Converse, leitor,  sobre isso no seu grupo, no eu movimento, na sua paróquia:
1.    Formação – O ponto de partida pode ser um convite às lideranças da paróquia, para o estudo do Texto-Base da Campanha e  as sugestões ali apresentadas. O padre, um professor, ou alguém do Conselho pode fazer um resumo prévio e apresentar à discussão de todos. O conhecimento do que se faz na comunidade, na área da saúde, pode abrir espaço para se discutir o falta ser feito.
2.    Valorização dos Profissionais – Um convite para os profissionais da saúde, um encontro com eles, será uma forma de ouvi-los, de valorizar o seu trabalho, e apontar caminhos. Será interessante conhecer quem são os responsáveis pela saúde, quais os seus projetos e dificuldades. Também aqueles que participam do Conselho Municipal da Saúde podem explicar o que fazem e como fazem. É uma boa ocasião para incentivar a comunidade a participar e interagir com esses conselhos.
3.    Lançamento da CF – Uma celebração especial de lançamento da Campanha da Fraternidade deverá reunir representantes das diversas comunidades, movimentos, coordenadores de Grupos de Reflexão Permanentes, com o anúncio de algumas iniciativas que possam ser acolhidas por todos. A ocasião é de sensibilizar a comunidade para reconhecer onde estão os mais necessitados, onde está a face de Cristo sofredor, na área da saúde, no âmbito paroquial.
4.    Grupos de Reflexão – Já estão disponíveis os roteiros para os Grupos de Reflexão para o tempo da Quaresma, semana Santa e Vigília Pascal.  Os grupos devem ser cultivados, orientados, motivados a produzirem gestos concretos na linha da fraternidade. O próximo volume de roteiros, da Pascoa até Cristo Rei, virá acompanhado de um CD gratuito, com músicas e testemunhos, para estimular os grupos a se reunirem durante todo o ano.
5.    Pastoral da Saúde – É hora de renovar, impulsionar, ou mesmo formar um grupo que ponha em prática a Pastoral da Saúde. Há um amplo leque de ações que podem ser realizadas: visitas aos doentes, nas casas e nas instituições de saúde; há espaço para ações na área preventiva, ervas medicinais, alimentação saudável; a Pastoral da Saúde também pode atuar juto ao Conselho Municipal de Saúde, participando da elaboração de políticas públicas na área da saúde.
6.    Unção dos enfermos – Uma celebração especial, em horário adequado, poderá ser ocasião para a administração coletiva da Unção dos Enfermos aos doentes e aos mais idosos. Os Ministros podem ficar encarregados de prepara-los para esse evento. O padre deverá agendar a visita àqueles que não puderem se fazer presentes.
7.    Festas sem álcool – Uma boa iniciativa seria formar um grupo de Pastoral da Sobriedade. O apoio àqueles que querem deixar o vício do alcoolismo pode ser ampliado em uma campanha para que todas as comunidades realizem as festas de Igreja sem bebida alcoólica, com a conscientização das famílias para a importância dessa medida. Prevenir quanto às drogas e abuso de álcool entre os jovens.
8.    Ações educativas – Uma ação junto às crianças e adolescentes: tomar consciência dos perigos futuros decorrentes de uma alimentação descontrolada. Incentivar hábitos saudáveis. Trocar refrigerantes por sucos, salgadinhos industrializados por verduras e legumes.
9.    Orientação profissional – Uma “Jornada da Saúde” pode oferecer aos interessados após a missa, informações sobre hipertensão, diabetes, colesterol. Profissionais podem medir a pressão, glicemia, orientar sobre atividades físicas, ou os perigos da auto-medicação.
10.    Coleta Nacional – No domingo de Ramos acontece a Coleta Nacional da Solidariedade. Uma parte da Coleta seguirá para os projetos da Cáritas Nacional, para projetos na área da saúde. Como não temos ainda formada a Caritas Diocesana, podemos submeter ao Conselho Presbiteral diocesano os projetos paroquiais que nascerem nesta Campanha da Fraternidade. Os critérios: que seja na área da Saúde; que tenha contrapartida e posterior sustentação por parte da comunidade paroquial.

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