Só em comunidade se pode viver a proposta cristã

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Junto com este número do Estrela Matutina, as nossas 25 paróquias estarão recebendo os livretos da Novena de Natal. Por esta razão, não há o encarte que vinha sendo distribuído nos meses passados, com os roteiros para as reuniões de grupos.

Aproveito, então, esta ocasião, para refletirmos sobre a vida cristã vivida nos pequenos grupos que se reúnem em torno da Palavra de Deus, que na nossa Diocese se chamam GRPs, ou Grupos de Reflexão Permanente. Permanentes, nem todos são, pois muitos grupos acontecem somente no tempo de preparação para o Natal. Outro tanto se reúne nas semanas da Quaresma, em grupos, preparando a Páscoa do Senhor. Nosso desejo, no entanto, é que, a partir de agora, com a Novena de Natal e, a partir da Quaresma do ano que vem, com novos roteiros, os grupos sejam, de fato, permanentes e possam trazer o alimento da Palavra a todos os nossos irmãos. Esse é desejo da nossa Igreja que tem, como uma das “urgências” da ação evangelizadora, tornar-se cada vez mais uma “Igreja-Comunidade de Comunidades”. Esta expressão, consagrada pelo documento de Aparecida, e expressa nas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora no Brasil (DGAE), foi ratificada pela Assembleia Geral da Igreja do Paraná, como um desejo comum de todas as dioceses paranaenses.

Formar um grupo de terço foi a alternativa encontrada por alguns homens da paróquia Nossa Senhora do Rocio que, desde junho, se reúnem todas as quartas-feiras, às 20h, para rezar.

Pessoa e Comunidade

É contraditório, mas vivemos um tempo de agudo individualismo. E ao mesmo tempo as pessoas buscam intensamente tomar parte de diversas formas de comunidades. A vida urbana, a concorrência no trabalho, os apelos publicitários, o deslocamento para longe da família, a busca do sucesso individual, a violência e o medo, empurram o indivíduo a fechar-se em si mesmo. É expressivo o fenômeno da solidão, da depressão, a pobreza de relacionamentos. Por outro lado, a busca de formar grupos e comunidades virtuais e reais é também uma realidade. Aí estão as redes sociais, as tribos jovens, as associações de diversos interesses, como exemplo de comunidades.

Para a experiência cristã, não há dúvida de que a comunidade é essencial. Sem ela, a participação de muitos cristãos se torna fria e ocasional, e são muitos os que se aproximam da Igreja, apenas quando precisam dos sacramentos como o batismo, o casamento ou missa para os falecidos. Os pequenos grupos oferecem aos fiéis uma oportunidade de convívio fraterno, vínculos profundos, afetividade, entreajuda, lugar de verdadeira acolhida, proximidade com relação aos enfermos, além do encontro vivo com a Palavra de Deus e a oração. Por isso é necessário promover a formação dos pequenos grupos permanentes de reflexão e vivência, que não substituem a participação nas celebrações litúrgicas, antes a complementam e enriquecem.

 

Rede de comunidades

A palavra “rede” está muito ligada à experiência dos apóstolos de Jesus. Eram pescadores. As redes lhes traziam o alimento e a inclusão no grupo social. Jesus não os tirou dessa atividade, mas lhes deu outra visão: convidou-os a serem pescadores de homens (Lc 5,10). A rede não é uma metáfora ultrapassada. Pelo contrário, hoje se fala em “redes”, mais do que nunca. O mundo, que já se comunicava pelas grandes redes de televisão e notícia, agora tornou-se mesmo uma rede mundial, através dos computadores. Nessa rede se unem as pessoas pela informação, pelo entretenimento, pelos costumes, perto mercado e pela economia globalizada. E a Igreja que foi a primeira e maior rede de comunidades, hoje se enrosca, muitas vezes num isolamento desconcertante. Exemplos existem e são trágicos: uma diretoria de Capela que se acha independente da Paróquia, para tomar decisões; um grupo de Pastoral que não se renova e não se abre a novos participantes, um Movimento eclesial que  promove suas atividades e não participa das promoções da Paróquia, uma equipe litúrgica que “toma conta” de um horário de missa, como propriedade sua, grupos que ocupam espaços exclusivos e se referem a eles como “nossa sala”, “nosso armário”, “nossas coisas”, são alguns exemplos de quem está fora de sintonia com o mundo, hoje em rede. Como seria bom se entendêssemos a Igreja como uma comunidade de comunidades, onde não há espaço para ciúmes e competições entre grupos, onde o planejamento é participativo e se pratica a partilha dos recursos. Carismas diversos, mas uma só família.

 

Assembleia do Povo de Deus

A recente Assembleia do Povo de Deus, do Paraná, realizada no final de setembro (dias 23 a 25), retomou como prioridade regional a “Renovação Paroquial: por uma paróquia discípula, missionária e profética”. Nessa Assembleia repercutiram as “cinco urgências” da Ação Evangelizadora, tais como foram propostas nas Diretrizes Gerais, aprovadas para todo o Brasil, em maio passado: a urgência de sermos uma Igreja Missionária; a urgência de formar cristãos iniciados nos mistérios divinos; a urgência de tomar como alimento frequente a Palavra de Deus; a urgência de tornar a Igreja uma comunidade de comunidades; a urgência de estar a serviço da vida plena para todos. Sobretudo, nesta Assembleia, se acentuou muito o ponto de partida de toda a ação evangelizadora, que é voltar a Jesus Cristo, conhecê-Lo profundamente, estar com Ele, no diálogo da oração e no convívio fraterno. Sem essa experiência viva de um encontro pessoal e comunitário com Cristo, nossas ações, na Igreja, se tornam meros exercícios inúteis, moralismo vazio, tradição sem alma, e até mesmo a caridade se reduz a simples filantropia. Os Grupos de Reflexão Permanentes, a setorização da paróquia em pequenas unidades de oração e vivência, os movimentos e pastorais buscando formar uma verdadeira rede de comunidades são o caminho para realizar, de forma mais efetiva, esse encontro com Cristo, que está presente “onde dois ou mais se reúnem em seu nome”.

Não é fácil passar de uma pastoral centralizada na Matriz e Capelas, onde os fiéis vão buscar a oração e o atendimento, para uma Paróquia-Comunidade de Comunidades, espalhadas por todo o seu território, servindo a todos e dando frutos de caridade. Mas, adverte o Documento de Aparecida, “ninguém pode se isentar de dar esses passos”. (cf DGAE, 101).

Quero incentivar nossos leitores, e também  os Conselhos Paroquiais da Ação Evangelizadora, em comunhão com seus párocos,  a considerar, neste mês, algumas iniciativas nesta linha do crescimento dos grupos e pequenas comunidades nas Paróquias e Capelas. Aí vão algumas sugestões:

 

1.Que tal incentivar, a partir das Novenas de Natal, a formação dos pequenos grupos (de sete a dez famílias), com o intuito de continuar como grupos permanentes. Nossa diocese já teve muito mais Grupos de Reflexão Permanentes, hoje inativos.

2. A setorização da Paróquia pode ter como ponto de partida as Capelinhas, ou outras formas de associação, como os movimentos e atividades comunitárias.

3. Os ministros, catequistas, equipe missionária, lideranças jovens e outros que tiveram chance de uma formação doutrinal mais ampla, sejam convidados a coordenar e acompanhar novos grupos, sendo fermento para o crescimento da comunidade.

4.Os movimentos e grupos de espiritualidade não se fechem somente entre seus próprios membros, mas procurem abrir-se à comunidade toda, numa fecunda integração e participação.

5. Uma reunião de representantes e animadores dos grupos, com orientações práticas e o registro dos locais e número de participantes dos grupos, ajudará no aprimoramento e no crescimento dessa forma de ser Paróquia-Comunidade de Comunidades.

O Regional Sul II planeja preparar, para o início do próximo ano, mais exatamente para a o tempo da Quaresma, uma nova publicação com roteiros de encontros para os pequenos grupos, que devem se sentir motivados a continuar nesse caminho proposto pela nossa Igreja. Aproveitar o momento da graça, unir fé e vida, participar de corpo e alma, ouvir e corresponder ao apelo de Cristo, é isso que peço a Deus para as nossas comunidades.

 

Dom João Bosco Barbosa de Sousa

Bispo diocesano – dbosco@dbosco.org

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