Evangelho, urgente: A vida corre perigo!

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Na ocasião em que os noticiários mostravam mais de dois milhões de jovens reunidos com o Papa Bento XVI, em Madri, e a notícia de que o Papa viria mais uma vez ao Brasil, em 2013, também as manchetes mostravam o novo Mapa das Religiões no Brasil, apresentado pela Fundação Getúlio Vargas: Os católicos vêm diminuindo em número, nos últimos anos, os evangélicos cresceram. E quem mais cresceu foi o número dos que se dizem sem religião. Pela primeira vez, o percentual de católicos caiu abaixo de setenta por cento, e vai cair mais. É um alerta para nós, católicos, sem dúvida.a Há até certo ar de triunfo na mídia antirreligiosa, que vê na piedade popular um atraso, e vê nas Igrejas, sobretudo a católica, um empecilho para as novas ideias e para a liberdade das pessoas. O Brasil agora é economicamente “emer-gente”, e deve imitar os países ricos que já reduziram a religião a quase zero, e estão felizes. Será isso?

Entender os sinais dos tempos

Não podemos dar de ombros e dizer que o tempo do triunfalismo passou, não temos nada a fazer. Muito menos pôr a culpa nos noticiários que escolhem os grandes momentos da Igreja para jogar areia nos olhos dos católicos, com notícias de pedofilia, escândalos e estatísticas negativas. Em vez de procurar inimigos nas estrelas, temos o dever de olhar para nós mesmos. Afinal, não é o número de cristãos que importa, diz o Papa atual. Mais importante é a qualidade deles, o compromisso que têm com Cristo, o conhecimento de Cristo e a capacidade de dar a vida por ele. E nesses quesitos devemos reconhecer, infelizmente, que nosso percentual é bem menor do que as estatísticas apresentadas. Quando o Papa João XXIII, cinquenta anos atrás, disse que devíamos entender os “sinais dos tempos”, a Igreja buscou, no Concílio Vaticano II, colocar-se não em fuga, mas de frente aos os problemas do mundo atual, entendendo que ela tem uma resposta a dar, um caminho a apontar, uma luz a acender nesse mundo que vai afundando no vazio. Esse tempo não acabou.

Missão não é para encher a Igreja

As novas Diretrizes da Igreja no Brasil chamam a atenção para cinco urgências – já escrevi isso no Estrela de junho e agosto – a primeira urgência é a Igreja ser, de fato, missionária. Mas a missão não tem por finalidade “encher a igreja” e, muito menos, fazer concorrência religiosa. “Trata-se de reconhecer que o distanciamento em relação a Jesus Cristo e ao Reino de Deus traz graves consequências para toda a humanidade. Essas consequências não são percebidas só pela redução do número de católicos. Elas são sentidas, principalmente, nas inúmeras formas de desrespeito e mesmo destruição da vida” (DGAE,32). Esse é um ponto que precisa ser refletido: a vida corre perigo. No mundo sem Deus pode tudo: a propaganda antirreligiosa chama de progresso o combate à fé, o Estado proíbe o ensino religioso na escola, os legisladores aprovam leis que facilitam a droga e arrasam a família, a TV e a internet jogam pesado com as novas gerações, estimulando o consumo e o sexo precoce, a posse é o critério máximo de felicidade e a impunidade é regra geral, a ciência não tem limites éticos. A consequência está estampada nas estatísticas da criminalidade em alta, na desonestidade pública, na violência contra professores, na impunidade de menores agressores, na insensibilidade diante da morte de embriões humanos como se fossem ratos de laboratório. Mas é isso que as Diretrizes afirmam: com o afastamento de Cristo e do Evangelho, a vida corre perigo. São inúmeras as formas de desrespeito e mesmo de destruição da vida. “Todas as formas de violência e exclusão – continuam as DGAE –  revelam o distanciamento de Jesus e do Reino.”

Ecologia humana

O que deve nos preocupar, então, como igreja missionária é, primeiro a nossa própria prática cristã saudável e humana. Em seguida, o testemunho alegre de que o Reino de Deus é vida, paz, concórdia, reconciliação, o que não condiz com a destruição da vida, do meio ambiente e mais que tudo, do ser humano. Falando em Ecologia, neste mês de agosto,  no Congresso da Pastoral Familiar, em Belo Horizonte, o bispo Dom João Carlos Petrini, que preside a Comissão da CNBB para a Vida e Família, chamou a atenção para esse dado importante: “O desastre ecológico – afirma Dom Petrini – é o resultado de um tipo de progresso que não hesitou em poluir, envenenar, destruir, dizimar, para obter lucros grandes e rápidos. Foram necessários mais de duzentos anos antes que fosse reconhecida a necessidade de pôr limites ao poder das tecnologias e à sede de lucro dessa gente”. Serão necessários outros duzentos anos, ou quantos mais, pergunta Dom Petrini, para se colocar limites à manipulação humana, à liberdade de matar as vidas indesejadas, à apologia das drogas, ao declínio demográfico, ao aumento vertiginoso da depressão e da violência, ao disfarce da eutanásia para diminuir despesas previdenciárias e muitas outras agressões à vida e à família?! Sem Deus, não há como fundamentar a defesa da vida. Não há vida plena, sem que voltemos à verdade do Evangelho e do desígnio de Deus sobre a pessoa humana, sobre a família, sobre a beleza do Reino de Deus que é vida, paz, doação de si, reconciliação.

Evangelizar é gerar vida

As cinco urgências apontadas pelas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora no Brasil, são realmente uma proposta irrenunciável, segundo o Pe. Joel Amado, um dos teólogos que participou da elaboração do texto aprovado pelos Bispos da CNBB. “Essas cinco urgências se referem aos elementos centrais da nossa fé”, diz ele. E, continua, “funcionam como uma engrenagem: não se pode escolher qual delas trabalhar, pois estão todas interligadas. ” O fato de serem essenciais não significa que sejam fáceis de pôr em prática. No último Estrela Matutina, deixei como tarefa aos padres e aos Conselhos refletir sobre cada uma delas, respondendo com sinceridade “onde estamos?” com relação a essas urgências. E, principalmente, respondendo “Onde precisamos estar”. Posso garantir que não foi fácil colher essas respostas. E como a mesma tarefa foi dada a todas as dioceses do nosso Regional, posso imaginar que as demais dioceses também não tiveram muita facilidade em responder. Isso porque estamos, de fato, agarrados a uma ideia de que a vida cristã é quase só devocional e ritual, mais que de “gerar vida”. Precisamos dar passos mais decisivos na prática missionária, mergulhar na iniciação cristã e na Palavra, articular as pequenas comunidades de vivência (são essas as quatro primeiras urgências) para fazer a estrada necessária para chegar à última urgência, aquela que completa a ação evangelizadora, que é a “vida plena” para todos. Devemos descobrir que evangelizar é mais que salvar almas. Trabalhar por condições de vida dignas para as pessoas, por políticas públicas que favoreçam a vida, defender a ética na política, nas relações comerciais, promover o bem comum, é também verdadeira evangelização. Uma “Igreja samaritana” é o caminho que temos a trilhar. A omissão diante disso será cobrada por Deus e pela história futura, afirmam as DGAE (n.66).

Está claro que não ficamos felizes com a diminuição do número de católicos no Brasil, pois esse é o menor percentual de católicos, já registrado no país nos últimos 140 anos de pesquisas. Preocupa-nos, sobretudo, porque a maior queda é exatamente entre os jovens de 10 a 19 anos, o que significa uma queda progressivamente maior.  O caminho proposto – partir de Jesus Cristo, e as cinco urgências estampadas nas Diretrizes Gerais – não é estratégia momentânea, nem desesperada busca de crescimento estatístico. É o remédio de que precisamos para atravessar com Cristo esse grande deserto pelo qual passa o mundo. Um mundo novo está sendo “gestado”,  uma nova cultura, e há que se passar essa “adolescência” irreverente e, em muitos aspectos, irresponsável, para que amadureça uma nova humanidade. Por isso mesmo o papel profético da Igreja, sem abrir mão da verdade do Evangelho, é indispensável.

Quero recomendar aos nossos Conselhos Paroquiais e agentes de pastoral: retomar com mais profundidade as perguntas que foram colocadas em nosso último número do Estrela: podemos começar aprofundando mais o conteúdo da primeira urgência: Onde estamos com as Missões. Onde precisamos estar? A Coordenação Diocesana das Missões está sugerindo às Paróquias:

a) Formar, onde não houver, uma Equipe Missionária Paroquial que, a partir das DGAE possa responder a essa questão.

b) Convocar os jovens para o trabalho missionário paroquial. Muitos deles participaram das primeiras etapas da Missão diocesana. Os jovens terão, nos próximos anos, uma motivação especial para se preparar para a Jornada Mundial da Juventude no Brasil. Uma forte juventude missionária será um bom começo.

c) investir na formação, em parceria com a Catequese, ou aos moldes dela, é uma necessidade, e há cada vez mais urgência de dar esse passo.

Que Deus nos ajude a caminhar com coragem, firmeza, e em paz!

 

Dom João Bosco Barbosa de Sousa

Bispo diocesano

dbosco@dbosco.org

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