Casais em segunda união

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Podem eles ser acolhidos e amados pela Igreja?

Um casamento foi celebrado com flores, festas e sorrisos. Era para serem felizes para sempre, mas, depois de alguns anos, o relacionamento revela-se insustentável, os filhos sofrem tanto ou mais que os pais, o amor já não existe, a fé não foi capaz de reconduzir à reconciliação e à paz. Assim termina a convivência. Após um período de vazio e solidão, cada um busca o seu caminho e encontra um novo relacionamento, uma nova união. Mas a Igreja não abre mais a possibilidade de receberem o matrimônio novamente. Soma-se ao sofrimento da separação outro sofrimento: o preconceito e a exclusão.

No início deste mês de julho, na Casa de Formação Cristã, na Diocese de União da Vitória, nos dias 2 e 3, a Pastoral Familiar realizou um primeiro encontro, reunindo casais de diversas paróquias que estão em segunda união. Já antes, no mês de abril, houve uma preparação dos agentes, para encontrar um caminho de acolhida, apoio e solidariedade a esses – irmãos nossos pelo batismo e pela fé – que vivem uma segunda união estável, porém irregular perante a norma da Igreja. Seria possível a esses casais viverem uma vida cristã familiar, unidos à Igreja, nessa situação? Estariam vivendo em pecado? Poderiam receber os sacramentos da confissão e da eucaristia? Podem ser padrinhos de batismo? Por que razão a Igreja tem normas tão severas com relação ao matrimônio? Há casos em que a Igreja reconhece a nulidade de um casamento anteriormente celebrado? São muitas as interrogações não só dos próprios casais, mas também dos familiares e dos fiéis das nossas comunidades. Para esclarecer todas essas questões é que o referido encontro foi feito. Agora é hora de acolher esses casais em segunda união. E não só os agentes da Pastoral familiar como as próprias comunidades devem recebê-los, com compreensão e amor, plenamente informados quanto aos ensinamentos e preceitos da nossa Igreja para esses casos específicos.

A orientação da Igreja

Embora os casos de separação e novas uniões tenham-se tornado mais frequentes, só agora é que estamos acordando para esse debate. E a orientação da Igreja sobre esse assunto já vai completar 30 anos. Foi o Papa João Paulo II quem trouxe clareza a essas situações que foram chamadas de “casos especiais”, na Exortação Apostólica “Familiaris Consortio”, de 1981. Esse documento fala sobre a importância, a beleza e a missão da Família, invenção do próprio Deus.  Descreve, também, de forma muito precisa, todas as situações que envolvem as famílias nos tempos de hoje, e que são irregulares conforme a visão da Igreja, desde as uniões de fato, sem nenhum compromisso oficial, nem civil nem religioso, às uniões realizadas só civilmente, e também àquelas em que houve o sacramento do matrimônio, seguido de separação e nova união somente civil. Estas últimas foram chamadas pelo Papa de “casos difíceis”, pois são irregularidades que nem sempre podem ser conduzidas a uma solução adequada às normas da Igreja. O papa João Paulo II afirma que os casais em segunda união devem ser acolhidos. Diz  que “a Igreja existe para conduzir todos à salvação, especialmente, os batizados. Ela não pode abandonar esses irmãos, mas deve oferecer-lhes meios de salvação”. Ele exorta toda a Igreja, pastores e fiéis, a ajudá-los, como batizados, a não se sentirem separados da Igreja. O Santo Padre explica que a Igreja, fundamentada na Sagrada Escritura, não pode admitir, aos que contraíram uma segunda união, que recebam a comunhão eucarística, porém “sejam exortados a ouvir a Palavra de Deus, a frequentar o Sacrifício da Missa, a perseverar na oração, a praticar a caridade, a educar os filhos na fé cristã e a implorar dia a dia a graça de Deus” (cf FC, 84).

Foi a partir da Exortação Familiaris Consortio que a Igreja estruturou a Pastoral Familiar em três grandes áreas: o setor pré-matrimonial, que olha para a preparação do casamento, o setor pós-matrimonial, que abrange o cuidado das famílias já constituídas, os movimentos familiares, o atendimento pastoral às famílias e, por último, o setor chamado de “Casos Especiais”, que considera esse variado leque de situações irregulares, ou que merecem um cuidado mais atento da Igreja.

Prioridade Regional

A Pastoral Familiar do Regional Sul II, que abrange o Estado do Paraná, em sintonia com a Comissão Episcopal Nacional para a Vida e a Família, da CNBB, escolheu este último setor, o dos “Casos Especiais” e, dentro dele, a acolhida aos casais em segunda união, como prioridade do Regional. Uma equipe de agentes da Pastoral Familiar se dedicou a conhecer bem o assunto e, a partir do início deste ano de 2011, começou a percorrer as dioceses paranaenses, preparando casais para acolher aqueles em situação irregular, que muitas vezes já frequentam as nossas paróquias, ou que delas se afastaram por desconhecimento ou preconceito. Essa equipe esteve em União da Vitória, nos encontros diocesanos de abril e de julho. O que se espera a partir desses encontros? Primeiro, que os próprios casais da Pastoral Familiar conheçam o que diz a Igreja, pois, muitas vezes, andamos informados superficialmente.

Segundo, que os casais em segunda união sintam que a Igreja, mãe Misericordiosa, acolhe-os e sustenta-os na fé e na esperança. Eles devem conhecer quais os caminhos propostos pela Igreja, para que sua situação seja regularizada, se for possível. E, mesmo sendo isso impossível, conforme as circunstâncias, tenham consciência de sua situação, e vivam unidos a Deus, na convivência da Igreja e prática do amor cristão.

Eucaristia, por que não?

Frequentemente esse é o ponto mais questionado da orientação da Igreja. Os casais que estão em situação irregular entendem como uma condenação e exclusão. Mesmo os agentes da Pastoral Familiar questionam. É possível conciliar o acolhimento amoroso que a Igreja quer oferecer a todos, e essa norma explícita? A questão fundamental é a própria declaração de Jesus – explícita também – sobre a indissolubilidade do matrimônio (Mt 19,9). Quando os casais compreendem as razões da Igreja, quando compreendem mais profundamente o que significa um sacramento, especialmente, a Eucaristia e o Matrimônio, passam não só a aceitar o que diz a Igreja, mas também a defender o que ela ensina. A compreensão mais profunda, que muitos cristãos infelizmente não têm, é que dá lugar à dúvida. Isso é esclarecido nos encontros, primeiro com os agentes de pastoral, inclusive os sacerdotes, e depois com os próprios casais em segunda união. Há uma infinidade de bens que a Igreja dispõe àqueles que querem participar dela. Há também restrições, que preservam a sacralidade desses bens, que os casais passam a defender, quando compreendem bem o seu significado, pois não representam uma condenação ou julgamento, pois isso cabe somente a Deus. Há situações, é certo, em que a Igreja pode reconhecer a não existência do vínculo matrimonial anterior, e isso também é um caminho que pode ser apontado aos casais para voltar ao sacramento, se for esse o caso.

Estamos apenas começando

Apesar dos 30 anos da Familiaris Consortio, somente agora a Igreja, sobretudo aqui no Brasil e no Paraná, tem dado passos decisivos no sentido de buscar um caminho de vida cristã para os casais em segunda união. A prudência e a profundidade da questão exigem esse cuidado. A irresponsabilidade e a corrupção dos laços familiares vêm sendo disseminadas escancaradamente pela sociedade do prazer, do consumo e da superficialidade, com grande prejuízo para a humanidade. A Igreja não pode abrir mão de sua função de mãe e mestra, pois hoje, ela é quase a única voz e referência sólida, em defesa do matrimônio natural, indissolúvel, entre homem e mulher, e testemunha de seu benefício à convivência humana.  As leis civis não favorecem mais uma compreensão do matrimônio de acordo com a revelação das Escrituras. A maneira como a nossa Igreja considera, com seriedade, essa questão, pode ser de difícil compreensão aos que estão já influenciados pela cultura atual, que destrói os valores mais enraizados. Por isso estamos ainda muito no começo de um caminho que merece ser conhecido, ampliado e valorizado por toda a nossa gente.

Os casais que estão sendo preparados nesses encontros diocesanos têm direito de ser instruídos e conhecer plenamente a sua situação especial com relação à doutrina da Igreja. Terão, após esse encontro, um roteiro de reuniões, de oração e de estudo, para depois participar das atividades normais da comunidade da Igreja, sabendo que atividades podem realizar sem constrangimento. Mas é preciso também que as nossas comunidades estejam preparadas para recebê-los com respeito, amizade e fraternidade, e plenamente integrados na vida eclesial, sem deixar que o preconceito impeça a boa convivência eclesial, e sem deixar de cumprir conscientemente toda a orientação da Igreja.

Quero pedir aos leitores do Estrela Matutina que, participando das nossas comunidades, troquem ideias sobre essa realidade que ainda é difícil para muitos. Peço, especialmente, aos sacerdotes e aos Conselhos das Comunidades que, conhecendo bem as normas da Igreja, com muita consciência, fortaleçam o trabalho da Pastoral Familiar paroquial e também da Pastoral Familiar Diocesana, que se esforça para que esses nossos irmãos encontrem as portas e corações abertos, e louvem a Deus por sua misericórdia e amor.

 

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