Que a mão esquerda não saiba o que faz a mão direita

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Perdoe-me o doce Mestre Jesus, e me permita uma pequena correção no seu Evangelho. Se o Senhor quer que o primeiro e o maior mandamento, a caridade, seja colocado em prática pelos cristãos, permita ao menos que a gente possa divulgar aquilo que se faz, as obras de caridade que acontecem nas paróquias, nos Institutos Religiosos, a caridade que é praticada pelos movimentos e associações da Igreja. Com essa recomendação de que a caridade deve ser feita em segredo, muitas obras de caridade acabam sendo desconhecidas. Tem outras igrejas e organizações não católicas que divulgam, pra todo lado, o que fazem, e atraem a simpatia e muitos adeptos, enquanto nós, católicos, fazemos o bem ficar escondido, a ponto de, tempos atrás, um político desses bem influentes, falando sobre as isenções de impostos, afirmar, “a Igreja Católica não faz quase nada de assistência social, que eu saiba…”.

De fato, eu não pretendo reformar, em hipótese alguma, o texto do evangelho de Jesus, não. Jesus disse isso para que nós não usássemos o bem praticado para promoção pessoal, como faziam os fariseus. Mas para as boas obras, Jesus disse o contrário: “Assim brilhe a vossa luz para que, vendo as vossas boas obras, as pessoas glorifiquem o Pai que está nos céus”. (Mt 5, 16)

Pensando na glória do Pai é que a CNBB decidiu listar todas as entidades da Igreja que promovem as obras sociais, e que muitas vezes não têm visibilidade na sociedade, ou mesmo são excluídas pelos meios de comunicação, propositalmente. E garanto que essa lista será surpreendente até para nós que conhecemos a ação da Igreja.

A nossa Assembleia diocesana, de fevereiro, também entrou nesse tema das obras sociais e acolheu a ideia de criarmos uma Cáritas Diocesana, que já está em formação, a partir da Paróquia de São Cristóvão e Nossa Senhora Salette.

Cáritas, o que é?

A organização da Igreja Católica que associa e orienta todas as obras sociais da Igreja Católica se chama “Caritas”. Caritas é uma palavra latina que significa “amor, caridade”. Na nossa língua, usamos “Cáritas” com acento, para acertar na pronúncia, mas a Cáritas é uma organização internacional. Está presente em mais de 200 países e territórios, e tem sua sede em Roma, na Itália. A Cáritas forma uma grande rede de entidades membro, espalhadas pelo mundo inteiro, formando as Cáritas Continentais, e também por países, como é o caso da Cáritas Brasileira, que foi fundada há mais de 50 anos e atua junto à CNBB. O nosso Sul II – Paraná também tem uma Cáritas Regional, da qual fará parte a nossa Cáritas Diocesana, quando for oficialmente fundada.

Por que uma Cáritas Diocesana?

A missão da Cáritas é organizar o serviço da caridade, em todas as paróquias e entidades que atuam na diocese, criando uma rede de serviços aos necessitados, desde o simples atendimento aos pobres, até a proteção da criança, do adolescente, do jovem, do idoso, o serviço aos doentes, deficientes, a educação, a proteção ao meio ambiente e a defesa da vida. É, portanto uma atividade voltada para a caridade, mas de forma planejada e organizada. A Cáritas acompanha e divulga o que faz a Igreja no serviço da caridade. Há muita gente que tem gosto em ajudar os necessitados e tem recursos pra isso, mas faz questão de ver como está sendo feita essa ajuda. Isso é justo. A Cáritas também atua nas ocasiões de grandes calamidades, recolhendo donativos e garantindo a entrega deles aos flagelados. Uma Cáritas Diocesana, então, terá por missão interligar os trabalhos sociais que são realizados em toda a área da Diocese, motivando e incentivando o aperfeiçoamento desses trabalhos, trocando experiências e recursos, evangelizando por meio das obras sociais. Poderá utilizar em projetos sociais o Fundo de Solidariedade, que é uma parte da Coleta da Campanha da Fraternidade, realizada a cada ano. Poderá fazer parcerias com órgãos públicos e empresas privadas e realizar de forma mais eficiente o serviço de atendimento aos necessitados.

A Cáritas Diocesana já começou

O primeiro projeto com o nome da Caritas de União da Vitória foi feito em 2010, quando a Paróquia de São Cristóvão e Nossa Senhora da Salette, na ocasião do Natal, distribuiu para todas as paróquias um pequeno presépio, feito pelos jovens da paróquia, com o objetivo de celebrar melhor o Natal e também para obter recursos para as atividades de formação para da juventude do bairro. A mesma paróquia já colocou em andamento outros três projetos: o projeto “Pão de Cada Dia” (que atende e visita 40 famílias pobres); o projeto “Clube AMM” (que oferece formação e diversão sadia a adolescentes e jovens); e mais recentemente o projeto “Nosso Lar” (para melhorar a moradia das famílias carentes com pequenas reformas e móveis). Foram escolhidos dois padres para a animação da Cáritas Diocesana: Pe. Artur Dudziak e Frei Pedrinho. Na formação de agentes da Cáritas já estiveram presentes representantes de sete paróquias. Os passos seguintes serão: motivar as paróquias a desenvolver os seus trabalhos sociais já existentes e criar novos projetos que farão parte da rede Cáritas; formar um grupo de animação da Cáritas, com pessoas que realizam obras sociais nas paróquias e entidades; divulgar os trabalhos e ampliar as parcerias, fortalecer as ações realizadas; por fim, dar uma estrutura jurídica à Caritas Diocesana, com estatuto, diretoria, conselho fiscal, seguindo as orientações da Cáritas Nacional. Este último passo é, sem dúvida, importante para qualificar as ações da Cáritas e dar a ela a credibilidade necessária para receber e administrar os recursos destinados à solidariedade.

Mãos à obra

É hora de as Paróquias formarem um grupo de agentes para o trabalho social. Quem pode participar desse grupo? Pessoas que coordenam ações caritativas na paróquia (cesta básica, sopão, Cesta de Natal, bazar de roupas, grupos de 3ª Idade, Pastoral da Criança e da Pessoa Idosa, e outras). Também  podem ser convidados paroquianos que participam dos Conselhos Municipais (da Criança, do Idoso, da Saúde etc). Deve fazer parte algum membro dos Conselhos da Comunidade (CAF e CPAE). Qual a tarefa desse grupo?

1. Olhar com atenção e carinho quem são os necessitados da Paróquia. Conhecer sua realidade. Organizar um grupo de visitas. Quem necessita da ação caritativa da paróquia? Há pessoas que passam fome? Necessitam de emprego, orientação, amparo? Há grupos que merecem atenção especial? Prisioneiros, doentes, dependentes de álcool e outras drogas? Quais as necessidades das crianças e adolescentes, jovens e idosos?  Há injustiças e preconceitos? Há necessidade de proteger a família? Que áreas seriam escolhidas como prioridade da ação social?

2. Avaliar os trabalhos existentes – São suficientes, bem organizados, atingem os objetivos? A comunidade os conhece e ajuda? Precisam de mais agentes, mais recursos? Como conseguir que a comunidade toda, os movimentos, as pastorais, benfeitores,  participem das obras sociais? É possível colocar esses trabalhos na forma e metodologia sugerida pela Cáritas?

3. Programar ações pontuais – Também podem ser projetos sociais ações que não são permanentes. Uma campanha de agasalho, um programa de educação ecológica, uma semana de esclarecimento de saúde, uma ação nas escolas, de conscientização contra álcool e drogas… projetos pontuais assim animam a comunidade, formam a consciência, mostram que a caridade é tão abrangente quanto a vida.

4. Eleger um ou dois membros da paróquia para compor a equipe diocesana da Cáritas. Essa equipe vai se reunir oportunamente para viabilizar a institucionalização da Caritas Diocesana.

5. Vencer algumas resistências – “Projeto social, planejamento, metodologia, cronograma, recursos humanos, parceiros, orçamento, avaliação… iihh, padre, isso é muita burocracia! A gente já distribui a cesta básica há tanto tempo e não precisa disso, padre!” A frase é típica de pessoas de boa vontade que fazem o atendimento social, não querem ampliar, evoluir, fazer melhor. Muitas vezes são pessoas que estão há muitos anos fazendo o trabalho do mesmo jeito. Reclamam que não têm quem as substitua, mas não fazem muita questão de admitir outras ajudas. A Metodologia da Cáritas permite que mais gente se envolva no trabalho social, colaborando, participando, acompanhando os resultados. Um verdadeiro trabalho de evangelização. Um trabalho bem feito pode ser implantado em outras comunidades, formando uma verdadeira rede social.

Caro leitor do Estrela, você pode até pensar que “obra social, Cáritas, projetos, isso é coisa lá da paróquia, não tem a ver comigo”. Quero lhe dizer que temos todos a ver com isso. Jesus disse assim: “Nisto todos saberão que vós sois meus discípulos! (Jo 13, 35)”. A caridade faz também esse papel: dar credibilidade ao Evangelho.  A nossa Igreja Católica sofre hoje uma profunda crise de credibilidade. O mundo, cada vez mais afastado de Deus, nos questiona. Diz que é inútil rezar, e que as ideias que a Igreja defende são fora de moda, ridículas. Há necessidade de que o mundo veja as obras sociais que a Igreja faz, mesmo que a mão esquerda não saiba o que faz a direita. A caridade social ainda é o meio mais eficaz de mostrar ao mundo, surdo à Palavra de Deus, que o projeto de Deus é um projeto de amor. Creio ser tarefa de cada um de nós perguntar, cada um a si próprio: além de rezar, o que faço eu para que a minha Igreja seja uma fonte de amor e caridade, uma escola de amor para a humanidade?

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