Formados para Reconhecer nas Escrituras a Palavra de Deus

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O povo da antiga Aliança recebeu de Moisés, junto com a Lei de Deus, a obrigação de carrega-la como pulseira, nas mãos, e amarrada na testa, entre os olhos. Deviam também escrevê-la nas portas das casas e também no portal de entrada das cidades (Dt 6, 6-9). Esse costume os judeus continuaram pela história afora, e o próprio Jesus cita os “filactérios” e “franjas” que os fariseus usavam na roupa, com trechos copiados da Lei. Essa norma do livro do Deuteronômio, apesar de esvaziada pelos fariseus, queria dizer simplesmente que a Palavra, estando amarrada na testa, devia ocupar os pensamentos do fiel. Colocada entre os olhos, devia ser o seu ponto de vista pra interpretar o mundo. Amarrada em suas mãos, devia ser capaz de instruir o seu agir, para ser conforme a vontade de Deus, o autor da Lei. Colocada nas portas da casa e nos portais da cidade, quer dizer fazer valer a Lei de Deus no ambiente doméstico, e, também, de forma pública, na cidade e na sociedade.

Não precisamos voltar ao costume do antigo Israel, mas precisamos redescobrir a centralidade da Palavra de Deus em nossa vida cristã, conhecê-la em profundidade e ensinar aos filhos, argumentar com ela, tomar decisões a partir da Palavra e, mais que tudo,  rezar com a Palavra, dialogar com Deus vivo, por meio da Escritura Sagrada.

Não é exagero

Volto, portanto, ao tema da Palavra de Deus, embora já tenha, tantas vezes, dedicado esta página inicial do Estrela a esse assunto. E volto porque, entre o conhecimento de uma urgência pastoral e uma efetiva mudança de práticas pastorais, vai um tempo, neces-sariamente longo de se formar uma nova consciência. Cito três argumentos recentes para justificar que devamos promover em nossas comunidades um verdadeiro mutirão bíblico. Primeiro: a pastoral bíblica foi tematizada em nossa Assembleia Diocesana (fevereiro passado) como proposta a ser trabalhada nas paróquias e comunidades. Segundo: O Regional Sul II, que reúne todas as dioceses paranaenses e a eparquia ucraniana, acaba de definir o tema a ser tratado na Assembleia do Povo de Deus de 2011: será a Renovação Paroquial (tema que vem se repetindo nos últimos anos) à luz da “Verbum Domini” (exortação pós-sinodal sobre a Palavra de Deus na Vida e Missão da Igreja) e das novas Diretrizes da CNBB (que serão aprovadas na Assembleia de maio próximo). Terceiro argumento: o Concílio Vaticano II está completando 50 anos, e entre os seus documentos, aquele chamado “Dei Verbum” sobre a Revelação Divina, deverá ser revisitado e colocado na pauta dos assuntos mais atuais da Igreja, agora retomado pelo Papa Bento XVI, na exortação Verbum Domini. São indicações, motivações, sinais que nos indicam o caminho e nos mostram que não há nenhum exagero em insistir nesse assunto, na nossa vida cristã, pessoal e comunitária.

Formar a consciência

É do Papa Bento XVI a expressão que coloquei no título desta página: “É importante que o Povo de Deus seja educado e formado claramente para se abeirar das Sagradas Escrituras na sua relação com a Tradição viva da Igreja, reconhecendo nelas a própria Palavra de Deus”. (VD,18). Peço que prestem atenção no duplo verbo sugerido na expressão do papa: educar e formar. Não é possível aproximar-se da Sagrada Escritura, sem um empenho, dentro das possibilidades de cada um, de conhecer o que já foi objeto de estudos, de comparações, de descobertas feitas por tantos estudiosos, no decorrer da história. É bom que se leve isso em conta, porque, nos tempos atuais, é bastante frequente a interpretação livre, pessoal, e até irresponsável do texto bíblico, mesmo com boa vontade de acertar, ou até com má-fé de pregar o que eu acho, ou confirmar o que eu já pensava. Não basta, pois, colocar a Bíblia debaixo do braço e sair a ensinar. Em seguida o Papa fala da relação entre a Escritura e a Tradição da Igreja. Bento XVI usa assim a palavra com T maiúsculo, pois não se trata de mero costume ou antiguidade requentada. A Tradição é o fruto de um longo percurso feito pela Palavra, saída da boca de Deus, e carregada por todos os séculos, como uma água que sai da fonte e vem irrigando o solo da Igreja, sem perder a pureza, a força generativa, a verdade contida nas palavras. Conhecer a interpretação dada pelos primeiros padres da Igreja, as lições dos grandes mestres de todos os tempos, é uma forma segura de encontrar o que a Palavra eterna tem a dizer hoje, na nossa vida presente. Note que o papa usa a palavra “abeirar-se” da Escritura. Com delicadeza e humildade nós podemos nos aproximar, tocar com veneração e respeito. Jamais poderemos nos fazer donos, dissecar, tirar do contexto e usar a riqueza da Palavra, com o risco de esvaziá-la do seu verdadeiro sentido. Quando nos “abeiramos” da Escritura, é ela que nos interpreta, instrui, corrige, encoraja e traz vida. Por último: pare na expressão “reconhecer na Escritura a Palavra de Deus”. Parece óbvio: cremos que a Bíblia é Palavra de Deus e ponto, não é isso? Evite a pressa, leia novamente: Escritura e Palavra não são a mesma coisa. Escritura é linguagem humana, está entranhada na cultura da época, com os limites do conhecimento de então, traduções mal feitas, incompletas. No entanto a Palavra, o Verbo, o Filho de Deus, nessa linguagem humana se expressa. É preciso reconhecê-lo. O Papa lembra uma comparação antiga: quando o Verbo de Deus se fez carne, tornou-se semelhante à nossa fraqueza. Muitos não o reconheceram, porque achavam impossível Deus se reduzir tanto, ser tão pequeno e frágil. Da mesma forma, quando “o Verbo se faz livro”. Aceita expressar-se na simples linguagem humana. A Escritura se torna um caminho para a Palavra. Não basta, pois, parar na Escritura, sem reconhecer, sem chegar ao encontro com a Palavra.

Ler com a Igreja

Para que os nossos Grupos de Reflexão Permanentes pudessem “reconhecer na Escritura a Palavra”, lendo com a Igreja, começamos a publicar, desde início do ano, um encarte no jornal, com roteiros para os encontros bíblicos. Este é o terceiro mês que temos o encarte, com os roteiros do mês de maio. Essa forma de apresentação dos temas bíblicos para cada semana trouxe alguns questiona-mentos, a partir da realidade das nossas comunidades. Alguns grupos já têm sua caminhada com outros roteiros. Outros estão começando ou recomeçando a partir de agora. Temos que refletir juntos e traçar um caminho adequado à nossa diocese.

Peço aos leitores, sobretudo aos grupos já constituídos em torno da Palavra, igualmente aos Conselhos Paroquiais da Ação Evangelizadora, os Movimentos e Pastorais que reflitam sobre os pontos propostos aqui, e levem alguma resposta aos párocos. Esse assunto será, proximamente, o tema de uma reunião de estudos do Clero, e será importante juntar as opiniões, ideias e também críticas construtivas que possam iluminar o caminho bíblico que devemos seguir. As questões podem ser estas:

1.Os Grupos de Reflexão Permanentes como vão? – Já ques-tionamos em ocasiões anteriores: os GRPs são motivados e acompanhados pela Paróquia? Algumas têm tomado iniciativas no sentido de indicar roteiros e preparar leigos para dirigir os grupos. Outras ainda ficam só nos grupos de quaresma e advento. Alguns movimentos ou pastorais fizeram bons avanços no sentido da “leitura orante da Bíblia”, mas em geral ficam restritas aos movimentos. Na ocasião da publicação da exortação Verbum Domini houve uma série de propostas para oferecer mais oportunidade de crescimento dos grupos.  Uma delas tornou-se realidade com a publicação dos roteiros de reuniões bíblicas no Estrela. O Conselho Paroquial da Ação Evangelizadora tem como sua preocupação o acompanhamento dos grupos? Qual o resultado?

2. Que roteiro utilizar? – Há paróquias que adotam um roteiro ou livreto adquirido para todos os grupos, outras deixam livre aos participantes dos grupos para escolher o material. Nos últimos meses, o Estrela Matutina passou a trazer os roteiros para as reuniões dos grupos. É a solução mais econômica, já que o custo fica absorvido pelo jornal. Mas é a forma mais prática? As pessoas guardam o jornal para esse fim? O formato, em folhas grandes não é prático, se perde. Não seria melhor se fosse publicado em formato de livreto? O que diz a experiência feita nas comunidades e na matriz? Existe uma modalidade que seja a melhor para a maioria?

3.Formação bíblica, como e para quem? – O Papa fala em educar e formar para abeirar-se das Escrituras. Temos voltado frequentemente a esse assunto e algumas paróquias já buscaram criar o seu modo próprio de formar os seus agentes, para que sejam multiplicadores do ensinamento recebido. A Catequese, especialmente, preparou um programa de formação, uma escola bíblico-catequética que, entrando em funcionamento, deverá trazer muitos benefícios. Mas a formação atinge sempre muito poucos agentes. Como atingir a todos com um programa de formação bíblica básica e abrangente? Pela Liturgia? Pelo jornal? Como tornar a Paróquia uma verdadeira “Casa da Palavra” que celebra, vive, ensina, promove, ilumina e serve o alimento da Palavra para dar vigor à vida Cristã?

Ao colocar estas questões para a nossa reflexão, quero pedir, sobretudo, às coordenações dos movimentos e das pastorais que recolham as observações, sugestões e anseios de todos aqueles que querem se aproximar da Palavra de Deus. Teremos uma ocasião, já escolhida pelo Clero, nas reuniões deste ano, para colocar em comum essas anotações e, então, definir um programa  a ser abraçado por todos, para que o alimento da Palavra de Deus chegue em todas as mesas cristãs.  Mas não seja esta espera um empecilho para começar hoje a tomar nas mãos a Escritura, para encontrar nela, e por meio dela, o Verbo Encarnado.

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