Cuidar das criaturas é amar o Criador

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“A Fraternidade e a Vida no Planeta” é o tema da Campanha da Fraternidade deste ano de 2011. O Hino da CF diz que “vai depender de nós” se as dores da natureza serão o “parto de um mundo novo”, ou meramente “agonia da terra”. Novamente a Igreja nos coloca diante do tema da Ecologia. Tema vasto, urgente e polêmico, tanto do ponto de vista da ciência quanto das políticas públicas que, em geral, tentam frear a destruição do planeta, sem mexer nos grandes interesses que estão por trás do consumo desenfreado, do lucro irresponsável, do uso de energias não renováveis e poluidoras, dos comportamentos insensatos. A nossa Igreja já tratou de temas ligados à ecologia nos anos anteriores, focando a defesa da vida, a importância da água, a questão da Amazônia, e outros assuntos afins, desde aquela Campanha da Fraternidade que tinha como tema “Preserve o que é de todos”, há mais de trinta anos. A consciência ecológica cresceu nos últimos anos, mas não o suficiente para que haja uma mudança tão grande de atitudes, que elimine o perigo de uma definitiva catástrofe planetária.

Conversão urgente

A Quaresma é ocasião, para os cristãos, para uma oportuna mudança de comportamento, uma renovação do compromisso com Deus e com a Igreja. A Campanha da Fraternidade sugere os pontos mais importantes e que carecem de conversão. Incentiva os cristãos a levarem a toda a sociedade essa mesma reflexão. Em se tratando de ecologia, a tentação é ficar em divagações sobre os grandes temas, como o aquecimento global, o efeito estufa e a morte das baleias. Tratando esses temas como algo distante de nós, empurramos as soluções para o governo, ou para alguma dessas ONGs especializadas em protestos, e paramos por aí. Outra dificuldade é entender qual é a ligação que há entre a ecologia e a religião. Eu não me lembro de nenhum penitente que tenha chegado à confissão dizendo assim: eu ofendi a Deus criador porque usei agrotóxicos de forma inadequada…”, “peço perdão porque cortei as árvores da beira do rio…” ou “peço perdão a Deus porque joguei lixo no rio…” Será que algum dos padres já ouviu isso na confissão? Mas, de fato, a soma dessas pequenas atitudes que destroem a vida é, sim, uma ofensa a Deus que criou tudo com tanto capricho.

A falta de Deus e a destruição do mundo

Não é novidade dizer que as pessoas, hoje, estão mais afastadas de Deus. A natureza não é mais vista como dom amoroso de Deus Criador, mas resultado do acaso que pode ter sido causado por uma explosão primordial. E, depois, a evolução explica tudo, e os segredos mais intrincados da biologia, da genética, da astronomia e até os meandros da alma humana vão sendo desvendados, de modo que tudo tem explicação, ou vai ter, sem precisar de Deus. E quando não há mais Deus, não há vida eterna, não há transcendência no horizonte do conhecimento humano. O homem se torna “dono” da natureza, a esgotar todos os seus recursos para proveito imediato. Pois, dizem os ateus, se a morte vai acabar com tudo, vamos aproveitar ao máximo o momento presente. “Se o meu modo de viver destrói o planeta, então que se acabe, ou então, os outros que cuidem, eu não quero nem saber…” Assim afirma Frei Clodovis, um religioso da Congregação dos Servos de Maria, experiente professor de Teologia. Diz ele que “no fundo da crise ecológica está a grande crise de sentido da vida”. A vida esvaziada no materialismo, sem a dimensão transcendente, leva ao grande “tédio da vida”, o desamor à vida. “De fato, se a minha vida não vale a pena, a vida da natureza vale menos ainda. Se não me amo e estimo, menos ainda eu amo e estimo o meio ambiente”, afirma Frei Clodovis. Daí, defende ele, o caminho necessário para a reflexão ecológica é a redescoberta de Deus Criador, diante do qual o ser humano é o centro da criação, e não meramente uma entre muitas formas de vida da natureza, como prega o movimento ecológico ateu. Ele é o “guarda da Criação” e não o “dono do mundo”, com poder absoluto para usufruir e destruir. (cf Boff, C., in Revista Perspectiva Teológica, nº 118, pp. 343-362, 2010).

Lição de casa

Gostaria de incentivar as nossas comunidades a tomar a sério o estudo dos textos e subsídios da Campanha da Fraternidade, levando as reflexões e questionamentos a outros possíveis ambientes, fora das igrejas: escolas, associações profissionais, organismos de preservação do meio ambiente, meios de comunicação, vitrines das lojas. Vale tudo para dar mais amplitude à reflexão de um tema tão pertinente. A Quaresma é tempo oportuno também para reativar os grupos de reflexão que estão desativados. Este número do Estrela Matutina traz uma página central que pode ser destacada e levada para o grupo, com as reflexões propostas pela CF. Os conselhos e as lideranças dos movimentos procurem, a partir dos textos da CF, focalizar os temas que são mais próximos da nossa realidade diocesana. É preciso descobrir quais os pontos em que o nosso exame de consciência, aqui no território da diocese, deve se deter e confrontar com a proposta da Igreja. O fruto desse esforço de conversão deve aflorar numa liturgia expressiva, em que os símbolos e gestos correspondam a uma mudança de consciência para valer. Essa é a lição de casa que todos temos para este mês, ou para a vida toda.

Algumas pistas

De toda a riqueza que podemos encontrar nos textos da CF/2011, arrisco levantar alguns temas que considero bem próximos da nossa vida diária, e que podem servir para a troca de ideias nas comunidades e grupos, sobre o tema da ecologia:

1. Estilo de vida – Há gente que, diante dos problemas do meio ambiente, sempre acha que encontrar soluções é tarefa para os outros. A Prefeitura, o Governo é que têm obrigação de cuidar. Claro que devemos, sim, exigir que o poder público faça a sua parte. Mas só teremos moral para cobrar, se cada um fizer sua parte. Que tal questionar o nosso estilo de vida? Podemos ter uma vida mais sóbria e simples, mais natural, menos consumista, mais responsável pela natureza? Podemos redefinir a nossa alimentação, valorizando os produtos naturais como os sucos, no lugar dos refrigerantes, hortaliças sem agrotóxicos? Podemos separar os materiais recicláveis? Desperdiçamos água? O que podemos mudar no nosso comportamento para ajudar nesse mutirão por um mundo melhor?

2. Exemplos para as crianças – As crianças de hoje serão as grandes beneficiadas, ou prejudicadas, pelos nossos atos de hoje. O que fazemos para que aprendam a cuidar do mundo, amar as criaturas e também o Criador? Deixamos essa tarefa de educar para a escola? Para a TV? O nosso exemplo pode ser seguido por elas? Que tal um concurso de redação, de desenho ou de mensagens feitas pelas crianças sobre o assunto? Será que os lojistas não poderiam ceder um espaço na vitrine para expor os melhores trabalhos? E a família costuma agradecer a Deus pelos alimentos, valorizando a oração das crianças na refeição?

3. O lixo nosso de cada dia – Esse é um grande problema, sobretudo dos aglomerados urbanos. É assunto que envolve necessariamente o poder público. Como podemos participar, como cidadãos, no trato dessa questão? É também um assunto para conversar em família, ou na comunidade: tratamos o lixo doméstico adequadamente? Podemos trocar o descartável pelo permanente? Como estão as áreas públicas a seu redor (praças, calçadas, córregos…) estão limpos? Há lixo esparramado? Que tal promover uma ação corretiva e educativa na comunidade?

4. Atos ilegais – Vivemos numa área privilegiada, de natureza exuberante e bela. O que podemos fazer para preservar o que ainda temos? A legislação é severa quanto ao desmatamento, à caça, ao comércio ilegal e agressões ao meio ambiente. Mesmo assim, há quem faça errado quando não há fiscalização. Um cristão age certo só por medo da Lei, ou por consciência de cuidar da natureza? Não parece que quem pratica atos ilegais tem vantagens sobre os que agem corretamente? Quais as consequências da ganância sem regra? A comunidade colabora com as autoridades e órgãos públicos quando são feitas campanhas educativas, de preservação, de uso dos agrotóxicos, descarte de embalagens, etc?

5. Ações comunitárias – As ações individuais são importantes, mas as ações coletivas são mais eficazes. Uma intervenção em favor do meio ambiente, feita pelo grupo de jovens, por um grupo de vizinhos, pelos alunos da classe, pela comunidade da Capela, além de ser mais divertida, tem maior efeito educativo e tende a ser mais duradoura. O estudo, a tomada de consciência, a procura de ações concretas, são ações mais eficientes quando feitas em conjunto. Que experiências você conhece, que podem ser levadas ao grupo? Poderia comunicar as boas iniciativas da sua comunidade para serem colocadas no site da diocese, como inspiração para outros?

Não posso deixar de lembrar, aqui, o meu querido São Francisco. Meu e de todos os que veem, como ele, as criaturas como expressão do amor de Deus. Patrono da Ecologia, ele nos ensina a cuidar, respeitar, amar, cultivar os dons de Deus, encantando-nos novamente com a beleza do mundo, onde cada criatura tem as marcas digitais de Deus.

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