Administrar os bens a serviço do Reino

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Os Conselhos de Administração e Finanças das Paróquias e Diretorias das Capelas devem ter como primeira preocupação a Evangelização que é o objetivo principal e a razão de ser da Igreja. A Igreja existe para evangelizar.


Está em fase final a revisão dos Estatutos das Comunidades da Diocese de União da Vitória, texto que por muitos anos orientou as atividades das paróquias e capelas, definindo a personalidade jurídica dos diversos organismos, a função dos Conselhos, as práticas administrativas e normas diocesanas. Estão sendo incluídas no texto algumas práticas mais recentes e nomenclaturas novas. Mas as alterações sugeridas nas reuniões do clero, e da equipe da Cúria, são poucas, o que mostra que este Estatuto conserva, no seu todo, uma grande e boa inspiração e organização, que vem do espírito lúcido de Dom Walter, e daqueles que construíram essas três décadas de trabalho comunitário. A aprovação final do novo texto deverá ser feita em duas etapas. Primeiro um período de implantação, para colher também as experiências das comunidades, e depois a promulgação definitiva do novo texto. De fato, as normas do velho Estatuto continuam em vigor. Porém, é certo que, no passar dos anos, a sucessão das lideranças, dos conselhos, as novidades pastorais, fazem com que o livrinho fique meio esquecido nas gavetas, de modo que um Conselho formado de gente nova, muitas vezes, nem toma conhecimento das regras em vigor. Alguns acham até que é excessiva burocracia, e que basta a boa vontade para conduzir os assuntos comunitários. Assim nascem algumas distorções. Por isso é sempre bom voltar aos Estatutos a cada início de gestão. Ele não é burocracia, mas é fonte de comunhão.

Conselhos a serviço da Evangelização

O novo texto do Estatuto sugere uma troca de nomes: As Comissões de Administração e Finanças (CAFs) passarão a se chamar Conselhos Econômicos Paroquiais (CEPs). As antigas Diretorias das Capelas serão chamadas de Conselhos Comunitários. Outra mudança, já bem assimilada, foi a passagem dos antigos CPPs, para CPAEs – Conselhos Paroquiais da Ação Evangelizadora. Não se trata, apenas, de uma mudança de nomes, mas de uma atitude nova: a palavra “conselho”, melhor que “diretoria” ou “comissão” exprime o desejo de que as lideranças, que atuam em nome da comunidade toda, tenham um papel mais evangelizador e vinculado à vida cristã quotidiana dos fiéis, e não fique exclusivamente no campo das promoções, churrascos e sorteios, ocupados apenas com reformas, construções e pinturas. Tudo isso é necessário sim, sem, contudo, perder o foco principal que é a evangelização. Como em todas as áreas, existem bons e maus exemplos, mas a preocupação com esta questão esteve presente na nossa última Assembléia Diocesana que escolheu, como uma das propostas para este ano, cito entre aspas: “Desenvolver a consciência evangelizadora das Diretorias Comunitárias das Capelas e das Comissões de Administração e Finanças das Paróquias”. Tenho notícias de que algumas paróquias refletiram com as lideranças sobre esse pedido da Assembléia. Será que obtiveram resultados práticos?

Dinheiro não é problema

Todos sabemos que em nossa diocese, a maioria das pessoas vive pobremente. Uma pobreza digna, feita de trabalho árduo, no campo e na cidade. Nossa região não tem cidades muito populosas, nem é caracterizada pelas grandes empresas rurais, nem pela ebulição econômica que gera os contrastes de luxo e miséria. Há necessitados, sim, e há também generosidade em partilhar. Contudo, encontramos uma dificuldade arraigada em nossa cultura local, no que diz respeito ao sustento das atividades comunitárias: coloco este assunto em debate: Há uma crença generalizada de que a Capela, a Paróquia, os Movimentos, devem promover seu sustento quase só com as festas, promoções, rifas, churrascos e sorteios. Acontece, por exemplo, que uma família gasta, sei lá, trinta, cinqüenta ou mais de cem reais na festa do padroeiro, compra rifas e sorteios, mas na ficha dízimo, sabe quanto? R$5 reais por mês, ou até menos. Faz sentido? Há gente que diz assim: eu trabalho muito nas festas, esse é o meu dízimo. Seria correto? Não quero menosprezar o trabalho, nem a pequena oferta nos mais humildes, pois o próprio Jesus deu muito valor às moedinhas da viúva, observando: era tudo o que ela tinha. Mas devemos nos perguntar com coragem: será que minha oferta do dízimo é um sinal de gratidão que corresponde àquilo que o Senhor me dá? Se as nossas comunidades fossem sustentadas por um dízimo generoso, fraterno, responsável, não poderiam as festas e promoções ser dimensionadas apenas para favorecer o encontro, a convivência alegre, a diversão inocente das crianças e jovens, das famílias celebrando a vida?

Somos um só corpo, ramos da videira

Outra coisa que não é bem compreendida por alguns: qual o sentido de uma parte do esforço comunitário, resultado do dízimo, das festas numa capela, ser entregue à paróquia, e outra pequena parte à Diocese? Já temos as coletas que são repassadas integralmente como a Coleta da Campanha da Fraternidade, dos Lugares Santos, o Óbulo de São Pedro, a Coleta das Missões e da Evangelização, que são destinadas às obras maiores da Igreja em outras partes do mundo. Para que, então, as porcentagens de festas e dízimos? Essa dúvida é decorrente de uma compreensão muito estreita do que é a Igreja em suas dimensões maiores. Um galho de árvore produz fruto, mas não faria isso se não estivesse ligado ao tronco, se não recebesse alimento das raízes. Também é certo que o tronco poderia morrer se lhe tirássemos a folhagem. Assim a Igreja é toda articulada, e a Capela só existe enquanto ligada à Paróquia. Esta só subsiste alimentada, em sua identidade, pela Diocese. E assim o conjunto das dioceses, unidas à Santa Sé. Quando uma capela recebe a visita do sacerdote, o custo não é apenas a gasolina e as velas, hóstias e vinho. Há que se pensar também na estrutura paroquial, a secretaria, a formação, os meios de comunicação, despesas que cabem a todos. E assim também a parte da Diocese, pouca gente se pergunta o custo de formação de um sacerdote, durante anos de estudo. E quantos sacerdotes a nossa diocese já formou, não só para as nossas paróquias, mas também para outras dioceses necessitadas? Quando a comunidade tem a consciência de que somos uma só família, um só corpo com muitos membros, como diz São Paulo Apóstolo, uma videira com muitos ramos, como compara Jesus, tudo ganha outro sentido. Se não compreendemos isso, haverá até quem esconda os resultados de uma promoção, e não faça corretamente os registros, para economizar uns trocados. Para quê? Enganar Deus? Não creio que isso possa passar pela consciência de um cristão.

Formação Permanente

No pedido da Assembléia de que os Conselhos tivessem mais consciência evangelizadora, eu suponho que esteja presente um fato observado com certa freqüência: já ouvi mais uma vez os agentes de pastoral dizendo assim: “Nossa comunidade não tem recursos para nos ajudar, quando somos chamados para um encontro de formação, quando fazemos uma reunião de planejamento, quando pedimos algo para a liturgia ou catequese. A Diretoria só pensa em construção, reformas e promoções.” Será exagero desses agentes? Por certo, esta não é a regra geral. Mas conhecendo as carências das comunidades, e as grandes necessidades da formação e da evangelização, penso que pode haver, ao menos, aquela estratégia do “cobertor curto”: cobre-se a cabeça, os pés ficam de fora. Puxa-se para os pés, descobre os ombros. Nesse ambiente é que se faz necessário ter claro a primazia da Evangelização. Na Paróquia, quem deve planejar e decidir é o CPAE, em comunhão com o pároco. Em algumas comunidades, tem-se a impressão de que o centro de decisão está exclusivamente nas mãos da Comissão de Finanças, que devia estar a serviço do CPAE. Não é isso que acontece? O assunto é amplo e cabe muito aprofundamento, com seriedade e espírito de comunhão. Como das outras vezes, deixo alguns questionamentos para os Conselhos Paroquiais da Ação Evangelizadora, CAFs e Diretorias das Capelas, lideranças dos movimentos e todos os nossos leitores:

1.Administração e Evangelização – O coração e o cérebro da Paróquia é o CPAE, e a CAF tem o encargo de prover o necessário para as ações de evangelização. Na sua Paróquia existe um plano paroquial de evangelização, com investimentos previstos pelo CPAE, para ser apresentados à CAF, e para que obtenha o devido apoio e controle administrativo? As despesas e receitas são devidamente comprovadas com documentos fiscais e recibos, dando exatidão à prestação de contas? Existe o necessário diálogo entre o Pároco, o CPAE, a CAF, os Movimentos e Pastorais? Como aprimorar sempre mais esse entendimento? O Estatuto das Comunidades, que está em vigor, é conhecido pelas lideranças comunitárias?

2. Evangelizar pelo Dizimo – O Dizimo consciente e generoso deve ser a primeira fonte de sustento da comunidade.  Existe na sua comunidade uma equipe bem formada para a motivação recebimento e controle do dizimo dos paroquianos? Há material (livros, folhetos, cartazes etc) disponível para a equipe aprofundar o sentido do dízimo e poder divulgá-lo? Seria conveniente incentivar o dízimo mediante a dispensa de taxas e espórtulas? Que parcela do dizimo da comunidade é empregado na prática da caridade? Que sugestões tem a comunidade para o crescimento da prática do dízimo na sua paróquia e para as demais paróquias da diocese?

3.Construções e Reformas – Construções e reformas exigem grande esforço da comunidade. Exigem também fiel observância das normas civis e tributárias. Por isso nenhuma comunidade deve construir ou fazer ampliações sem o conhecimento da Administração central da Cúria. Também é preciso reservar a parte da arrecadação necessária para a evangelização e a partilha das despesas mensais da Paróquia e da Cúria, que são divididas com todos. Seria necessário haver um fundo comum paroquial para ajuda às comunidades que estão em fase de implantação?

4.Espiritualidade de Comunhão – Há comunidades que compreendem a necessidade de partilhar as despesas que são comuns a todos, feitas pela Matriz e pela Cúria, sobretudo com a formação dos novos padres no Seminário. Outras não compreendem essa necessidade ou, em certos casos até se dispensam de uma total prestação de contas, para não ter esse compromisso. De que forma poderemos crescer o espírito de comunhão, como verdadeira fraternidade eclesial, na prática integral do que está previsto no nosso Estatuto?

5. Festas e Eventos – As festas das comunidades, confraternizações, churrascos e outras promoções, correm o risco de ser um contra-testemunho, pelo abuso de alguns na bebida alcoólica, e até casos de violência. Algumas comunidades têm tentado moderar o serviço de bebidas, ou mesmo eliminar totalmente o álcool. Na sua paróquia isso já ocorreu? O que podemos fazer para evitar esse perigo? Nas festas de padroeiro, muitas vezes a parte religiosa fica prejudicada e muitos nem podem participar religiosamente da festa. Como garantir que as nossas festas e promoções sejam, em primeiro lugar, religiosas, além da ocasião de convivência fraterna e reforço espiritual da vida comunitária?

É sempre difícil falar sobre assuntos de administração, finanças, dízimo e partilha. Em geral entendemos que as coisas ligadas à vida material são menos importantes que as espirituais. O mais importante é louvar a Deus, o amar ao próximo. Sem dúvida. As questões administrativas não são, por certo, o coração e o pensamento do corpo da Igreja. São, talvez, os pés, são a base. Mas é sobre essa base é que se assentam as demais virtudes. Se não conseguimos esse mínimo, que é partilhar fraternalmente o que temos, será que somos capazes de vôos maiores de espiritualidade, de amor e de fé? Não será por isso que o Livro dos Atos dos Apóstolos, bem no início da Igreja, fez questão de mostrar que “os cristãos tinham tudo em comum, partilhavam seus bens com alegria” e sobre essa base podiam construir o edifício da Igreja, pois tinham “um só coração e uma só alma” (At 4,32)?

Dom João Bosco Barbosa de Sousa,

Bispo da Diocese de União da Vitória

dombosco@dioceseunivitoria.org.br

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